3 de março de 2026

Ouvir ou escutar? Eis a questão

Parafraseando Hamlet, personagem da peça homônima de William Shakespeare, todavia, fundamentada numa visão formativa e sem perder o viés da reflexão, levanto o questionamento sobre qual é a ação mais salutar, essencial ou producente para a saúde auditiva do ser humano: ouvir ou escutar?

Será que há diferenças, contraposição, contiguidade, consonância? A resposta a tal pergunta é uma informação que precisa ser propagada e uma reflexão realizada de forma pessoal e periódica. 03 de março é o Dia Mundial da Audição, onde todos os anos a Organização Mundial da Saúde (OMS), promove uma nova temática com o objetivo de conscientizar e sensibilizar a sociedade acerca da surdez, promovendo ações e iniciativas de prevenção e cuidados contra a deficiência auditiva. E quanto a surdez espiritual? O que podemos fazer para prevenir nossa alma e o nosso ser dessa doença fatal?

Pastoral da Escuta: o refúgio da alma na era da solidão

Crédito: SDI Productions / GettyImages

O ouvido é um sistema ósseo composto por canais por onde passam líquidos que estimulam as células sensoriais do equilíbrio e da audição. O aparelho auditivo do homem é ao mesmo tempo um sistema complexo, mecânico, acústico e reflexivo. Qualquer alteração nesse processo pode dificultar a audição ou provocar problemas auditivos e de estabilidade. Ouvir ou escutar? Eis a questão. Ouvir, provêm do latim "audire", que significa perceber o som, é um processo mecânico, ou seja, é a capacidade do ouvido para captar os sons externos como fala, ruídos, melodias, sons contínuos, intermitentes, de alta ou baixa frequência e/ou intensidade. Somente ouvir algo não significa que a informação foi entendida. Para ouvir, é imprescindível que o ouvido esteja saudável, que ele seja capaz de captar as ondas sonoras espalhadas pelos ares, por meio das orelhas externas que funcionam como perfeitos amplificadores sonoros; transmitir este som por meio do ouvido médio, um verdadeiro canal por onde o som vai sendo purificado até chegar ao ouvido interno, no cérebro, onde é processado e compreendido.

Nesta fase não é mais apenas ouvir, é uma ação mais profunda e complexa, é escutar

Portanto, o verbo escutar, também proveniente do latim "auscutare", é o ato de dar atenção e compreender ao som que é ouvido. Escutar é uma habilidade que se desenvolve à medida do crescimento e amadurecimento da pessoa, também é um processo consciente e livre da vontade humana para compreender o que é ouvido. É ainda uma atitude de alteridade, onde há respeito, consideração e abertura ao diálogo com o outro. Escutar é mais do que dar atenção ao som, é ouvir com o coração.
Contudo, tanto para ouvir quanto para escutar, a pessoa precisa ter seu aparelho auditivo integro, em perfeitas condições de funcionamento, portanto, deve adotar medidas preventivas e protetivas para com o seu ouvido e cérebro. Uma perda auditiva de menor ou maior intensidade pode causar problemas e dificuldades significativas na vida diária da pessoa, influenciando essencialmente na comunicação, podendo tornar seus relacionamentos e seu viver mais difíceis.
As causas mais frequentes de perdas auditivas são: o uso constante de cotonetes; a exposição a barulhos altos por longos períodos, como ferramentas elétricas, ouvir músicas em alto volume; o envelhecimento natural; barulhos súbitos e muito altos, como disparo de arma de fogo ou proximidade a explosão e infecções do ouvido, particularmente em crianças e jovens adultos.

As causas menos comuns de perdas auditivas, incluem as doenças autoimune

(doenças que levam o sistema imunológico do corpo a atacar os próprios tecidos); doenças sistêmicas como diabetes mellitus e hipertensão arterial que podem alterar a vascularização dos ouvidos e provocar a deterioração do órgão; a genética, isto é, condições que causam surdez ou perdas auditivas herdadas do histórico familiar; defeitos congênitos, onde a pessoa nasce com alguma deformidade no ouvido; o uso de alguns medicamentos ototóxicos que lesam os ouvidos como efeitos colaterais; lesões nas orelhas e tumores dentro do ouvido ou em partes do cérebro e prematuridade infantil.

Sabemos que a perda auditiva pode não ser perceptível inicialmente e mesmo que nem todos os danos auditivos possam ser evitados, existem algumas atitudes que podem reduzir o risco ou até impedir a perda auditiva relacionada à idade e/ou induzida. Seguem algumas dicas importantes para serem adotadas e divulgadas.

1. Realizar o teste da orelhinha, teste fundamental para a detecção precoce dos problemas auditivos na infância.
2. Evitar barulhos altos por tempo prolongado.
3. Usar dispositivos de proteção adequados. Em muitas situações, a exposição a ruídos altos é inevitável, como na rotina de profissionais que operam máquinas, atuam em fábricas ou trabalham com música e eventos. Nesse caso, é fundamental seguir as orientações de ergonomia previstas para cada área de atuação.
4. Usar fones de ouvido com cuidado, o volume deve ser suficiente para ouvir de modo confortável. A OMS estima que mais de 1 bilhão de jovens correm o risco de desenvolver perda auditiva permanente na atualidade devido a essa e outras práticas inseguras.
5. Manter as orelhas secas, o excesso de umidade nos ouvidos pode facilitar a entrada de bactérias e um possível ataque ao canal auditiva com proliferação bacteriana.
6. Tratar as infecções adequadamente, seguindo sempre as orientações médicas. É importante ficar atento sempre que perceber sinais de gripes e resfriados fortes e dores no ouvido.
7. Não introduzir objetos no canal auditivo. Ao colocar qualquer objeto dentro do ouvido, existe o risco de danificar partes sensíveis, como o tímpano e causar perda auditiva. Ter cera no ouvido é normal e importante para a saúde auditiva.
8. Consultar o otorrinolaringologista sempre que necessário.

Ouvir e escutar com os ouvidos é algo natural ao ser humano

Escutar com o coração também deveria ser, pois essa ação tem o poder não somente de transformar as ondas sonoras em som inteligível, como promove a escuta da própria voz, favorece a compreensão dos nossos semelhantes e nos torna assaz escutadores da voz do Sagrado que habita nosso interior. Quem não escuta com o coração, pode tornar-se um surdo existencial, já não se trata apenas de uma perda auditiva física, mas de uma surdez espiritual, talvez mais grave e nociva à realidade de filho de Deus. Muitas vezes a causa dessa surdez é o pecado, mas podem ser também as dores, as feridas, os traumas ou os sofrimentos diversos, pois um coração machucado torna-se fechado e isolado, dificilmente se comunica, torna-se surdo, não ouve nada e a ninguém.Jesus foi um homem que escutou com o coração. Certa vez, levaram-lhe um surdo e mudo para que Ele o curasse. Ao tocar-lhe, Jesus disse: "Effathá!", ou seja, "Abra-te", imediatamente, os ouvidos do homem abriram-se, sua língua soltou-se, e ele começou a falar corretamente (Mc 7,35). Antes de se encontrar com Jesus, aquele homem era um sofredor, estava fechado e isolado em um mundo de silêncio, para ele era difícil comunicar-se. Com fé, atitude e no encontro com Deus feito homem, ele foi curado, houve uma abertura partindo dos órgãos auditivos até o coração, o surdo mudo se abriu para falar e relacionar-se.

É isso que Jesus veio fazer. Ele quer nos libertar, nos tornar capazes de viver uma plena relação conosco, com o outro e com o Pai. Quer nos ensinar a escutar a voz de Deus, a compreender a linguagem do Amor que fala ao nosso coração.

Este ano, o tema proposto pela OMS para o Dia Mundial da Audição é "Mudando mentalidades: empodere-se para tornar o cuidado auditivo uma realidade para todos. É necessário reforçar a importância de atitudes práticas e conscientes para proteger nossa audição e apoiar os deficientes auditivos. E numa atitude de empoderar-se da filiação Divina, todo ser humano é convidado a escutar a voz do Divino Mestre que diz "Abre-te!". Esta é uma palavra dirigida por Deus a cada um de nós. É um convite a não nos fecharmos em nós mesmos, a sermos sensíveis aos problemas e dores dos outros. Ele pede abertura não só dos ouvidos, mas da vida inteira, é um chamado a escutar e deixar Deus entrar em nosso interior, curar nossas feridas e nos libertar de toda surdez espiritual, pois o pior surdo é aquele que não quer ouvir.

Ouvir com os ouvidos e escutar com o coração, eis a nossa meta, eis a nossa missão.

Jací Fagundes – 

Fontes
1. MSD Manuais – Perda da audição. Mickie Hamiter, MD, New York Presbyterian Columbia Revisado/Corrigido: jun. 2024.
2. Tratado de Audiologia. 2ª ed. 2022.
3. World Health Organization


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/ouvir-ou-escutar-eis-questao-2/

2 de março de 2026

É possível conciliar ciência e fé?

A harmoniosa necessidade entre fé e razão

"Ciência e religião não estão em contradição, mas têm necessidade uma da outra para completar-se na mente do homem que pensa seriamente" (Max Planck). A razão e a fé são distintas, mas não se separam: a ciência se dedica à cena do ser, ao fenômeno, aos dados e aos fatos, ao "como"; a religião se consagra ao "fundamento", ao sentido último do ser, ao "por quê".

Créditos: Freepik.

Quem crê pensa, e quem pensa pode crer. Para constatar esse fato, basta prestar atenção ao modo como em nossa vida cotidiana conhecemos mais por fé do que por evidência e demonstração. As nossas convicções mais firmes, na realidade, não são baseadas em demonstrações. Por exemplo: a segurança com que o filho, que volta depois de uma longa ausência, reconhece os pais na rodoviária, a certeza com que, num matrimônio bem-sucedido, um cônjuge refuta uma calúnia contra o outro cônjuge, não são precedidas de argumentações, nem implicam dúvidas.

Tal reconhecimento imediato e intuitivo, embora não sendo fruto de um raciocínio explícito, pode ser explicado e justificado por meio de um raciocínio. Um perito, que, ao primeiro olhar, reconhece numa pintura a obra de um grande mestre, pode em seguida apontar os critérios que demonstram a validez da atribuição: se não for capaz disto, sua intuição se tornará suspeita.

A razoabilidade do ato de crer

A razão ajuda a crer melhor, e é uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e para comunicar o seu conteúdo de maneira razoável, inteligível e dialogal aos outros. Assim o fiel cristão pode refletir sobre a certeza da própria fé e pode prestar contas de sua razoabilidade. Com efeito, a fé deve apresentar-se como um ato racional.

Se assim não fosse, o cristão não poderia ser convidado a prestar contas da esperança que está nele (cf. 1Pd 3,15). A verdade revelada por mais sobrenatural que seja nunca é irracional ou absurda no senso forte.

A fé não é a conclusão de uma pesquisa científica. Se a fé fosse fruto de uma demonstração, já não mais seria uma adesão livre e, portanto, não seria culto a Deus. Por outro lado, nenhuma demonstração científica pode conduzir àquela firmeza que é peculiar da fé: quem crê está pronto a dar a vida pela sua fé.

O pensamento como alimento da fé

O próprio ato de crer consiste exatamente em dar o assentimento refletindo. De fato, quem crê pensa, e crendo pensa, e pensando crê. A fé se não é pensada, não é nada. Se se tira o assentimento, se elimina a fé, porque sem o assentimento não se dá a fé (Santo Agostino, PL 35,1631.178). Outro adágio de Santo Agostinho é muito apropriado: "creio para compreender, e compreendo para melhor crer". A fé se volta para si mesma para buscar a inteligência do próprio conteúdo.

Nesse sentido, a fé não paralisa a razão, antes a impulsiona a penetrar mais profundamente no mistério revelado para que a fé adira ainda mais fortemente. A busca da inteligência daquilo que se crê não é motivada por fatores alheios à própria fé; é pela sua própria natureza que a fé busca compreender, aprofundar e transmitir o seu conteúdo. É a própria fé que exige, portanto, a responsabilidade de um estudo constante dos seus conteúdos, de um crescimento permanente e de um cultivo cuidadoso na vida de fé.

O testemunho cristão, em nosso tempo, precisa mais do que nunca se motivar, bebendo das fontes da reflexão. Precisa, sobretudo, recuperar o porquê de valer a pena acreditar. Em outras palavras: é preciso pensar a fé. O não pensar a fé pode levar facilmente as pessoas a estranhar-se da fé, a não a acolher em sua dupla valência de dom e de livre aceitação, de dom e responsabilidade.

A fé não age como um elemento extrínseco ou exógeno na filosofia, na cultura, nas ciências e nas tradições religiosas. Ela age como fermento, a partir de dentro e levando à plenitude a filosofia, as ciências, as culturas e as religiões.

A fé pensa e dá o que pensar. Ela emancipa a razão humana abrindo-lhe horizontes de pesquisa e descoberta mais amplos, verdadeiros e humanizantes. A fé não bloqueia a razão, antes solicita o ser inteligente a caminhar em busca da verdade sem jamais se cansar, apesar de toda a canseira que essa busca implica.

A verdade é a meta da busca tanto da fé quanto da ciência. Hoje, é muito difícil falar de "verdade" sem ser acusado de autoritarismo e desejo de domínio, mas a verdade não deve ser entendida como instrumento de imposição e de dominação. Ela é que dá sentido e significado genuíno à vida humana. Tanto a ciência quanto a fé estão a serviço da busca e do encontro daquilo que é sumamente significativo e humano.


O encontro da verdade através do amor e do sofrimento

A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada (LF 27).

Ciência e fé também estão unidas na superação do sofrimento humano. Elas informam e dão forma a um agir autenticamente humano. O agir cristão não se contrapõem ao que é autentica e verdadeiramente humano, pelo contrário procura ser um agir plenamente humano que nos faça mais humanos, nos faça verdadeiramente humanos.

Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar conosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz (LF).

DOM JULIO ENDI AKAMINE, SAC
Arcebispo Metropolitano Belém do Pará


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/e-possivel-conciliar-ciencia-e-fe/

1 de março de 2026

Qual o posicionamento cristão diante da inteligência artificial?

A inteligência artificial chegou e veio para ficar

Os sistemas reúnem dados impossíveis de serem armazenados pelo cérebro humano. Porém, precisamos nos lembrar de que também ela foi produzida pelo conhecimento do ser humano; logo, não é algo superior ao homem. Sendo assim, é possível que ele evite eventuais riscos e preserve sua dignidade de ser imagem e semelhança de Deus.

Crédito: MTStock Studio / GettyImages

Sabemos que o uso que fazemos das coisas define a sua qualidade moral. Utilizada para bons fins e com bons meios, a IA pode, sem dúvidas, ajudar o homem em muitos campos. Mas, usada de modo leviano, poderá nos desconstruir — e aí está a preocupação da Igreja.

Preservar o ser humano

O Papa Leão XIV, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano, cujo tema é "Preservar vozes e rostos humanos", afirma, com clareza, que, se permitirmos que sistemas que simulam voz, rosto e emoção humanas dominem nossas interações, corremos o risco de enfraquecer pilares essenciais da convivência humana — da escuta e do pensamento crítico à compreensão empática do outro. Leão XIV alerta para que não deixemos perder nossas capacidades de pensar e criar, delegando aos chats essas habilidades que nos diferenciam das outras criaturas.

Como usar a inteligência artificial de forma benéfica?

Há dois erros que o cristão pode cometer diante das novas tecnologias: achar que precisa se distanciar delas ou mergulhar a fundo em seu uso, sem critérios. O Papa, no entanto, nos oferece outra perspectiva:

"O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas. Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação." (Leão XIV, Mensagem para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais)

Desses três pilares, quero me deter no que tange à educação, que, de acordo com o Papa, inclui o conhecimento de como tudo isso funciona, a fim de nos proteger de potenciais danos.

A educação para o uso da IA

Como, em nosso país, ainda é insuficiente o ensino que se oferece, principalmente nas escolas, sobre o modo de funcionamento dos meios de comunicação, nós mesmos precisamos procurar esse conhecimento — e não de forma superficial. Nesse sentido, é a busca pela verdade que deve nos guiar: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8,32).

Ir em busca das fontes da informação, aprofundar a pesquisa para saber se determinada pessoa existe, ter critérios para as pesquisas nos chats de IA — tudo isso são caminhos, mas não os únicos. É necessário compreender também que essas tecnologias utilizam algoritmos que "entendem" como você pensa e buscam prever ou influenciar o seu comportamento. Muitas vezes, fazer uma desintoxicação tecnológica ajuda, mas o autocontrole precisa ser diário.


Buscar relações humanas

Os últimos papas frisaram bastante a riqueza de olhar nos olhos e de estabelecer comunicações reais. Procurar relações presenciais, ter uma vida em que o contato humano seja frequente são antídotos que nos ajudam a sair da bolha digital. Ninguém está isento de cair nos vícios do uso excessivo e danoso desses recursos. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, exorta: "Quem pensa estar de pé, veja que não caia" (1Cor 10,12).

Deus quis se comunicar pessoalmente conosco por meio de Cristo, justamente porque é a experiência do que vemos e ouvimos que nos transforma. Quando ficamos presos em nossas casas, na época da pandemia, sentimos extrema falta do calor humano, porque precisamos de um semelhante para nos mantermos mais vivos. Nada substitui um aperto de mão, um abraço caloroso ou uma boa risada.

Quem de nós não foi tocado, um dia, por um gesto ou atitude de alguém? Lembro-me de quando, em um retiro espiritual, o olhar de uma pessoa voltado para mim foi suficiente para me remeter ao olhar de Cristo, a quem nunca vi pessoalmente.

O ser humano tem a dignidade de ser imagem e semelhança de Deus; isso nos torna únicos e insubstituíveis. Nosso rosto e nossa voz são a nossa identidade; portanto, é preciso protegê-los de serem utilizados para qualquer fim. Em muitos casos, é decisão nossa oferecê-los ou não para serem transformados em dados. Sempre seremos livres para decidir e responsáveis pelo que escolhermos.

 


Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/qual-o-posicionamento-cristao-diante-da-inteligencia-artificial/

28 de fevereiro de 2026

Fé e compromisso com Deus e com o próximo

Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! O tempo sagrado da Quaresma é este tempo especial de preparação para a celebração da Páscoa. A Igreja, ciente da sua missão de zelar pela vida espiritual de seus filhos e filhas, nos oferece, através da palavra de Deus e do Sacramento da Reconciliação, um itinerário de formação espiritual continuada, com o objetivo de nos preparar para a festa da Páscoa do Senhor.  

No caminho espiritual do cristão está presente o deserto, símbolo da aridez, das tentações, das provações, do despojamento e da purificação. Mas o deserto, visto na Bíblia como o lugar de provação física, é também lembrado como o lugar da purificação, da escuta e do encontro com Deus. Portanto, a Quaresma deveria ser na vida do cristão o tempo do silêncio, da escuta, da reflexão e do discernimento. Não o silêncio visto como fuga da realidade da vida, buscando um mundo paralelo e mais fácil. Mas o silêncio que busca contemplar o rosto transfigurado de Cristo Jesus, sobre o qual resplandece a luz de Deus e a face do Pai. Lembrando que o rosto transfigurado de Cristo está presente hoje na face desfigurada do pobre, do enfermo, do prisioneiro e do migrante. E nós somos chamados a mostrar, através da nossa fé, traduzida em obras de caridade, o rosto da bondade e da compaixão de Jesus. 

Recordemos, queridos irmãos e irmãs, que o amor verdadeiro não nasce de nós. O amor que o Senhor quer é uma resposta ao seu amor, que vem sempre "antes" do nosso. Sem o seu amor, sem a sua graça, nada podemos. É a graça de Deus que torna cada nosso gesto de amor uma resposta ao infinito amor do Criador, aliás, o alimenta e o sustenta. Podemos, através da abertura de coração, deixar o Senhor e a sua graça agirem na nossa vida, para sermos instrumentos nas mãos de Deus. 

"Eu vim para servir" (Mc 10,45): colocar-se a serviço da vida dos irmãos é uma oportunidade que Deus nos oferece para fazer renascer o sentido da nossa própria vida. Quando colocamos um pouco da nossa vida e do nosso tempo a serviço da vida dos outros, não rompemos só a barreira do isolamento e da indiferença, mas abrimos as portas do nosso coração ao amor mais sublime, aquele que se doa, que sente compaixão e se compromete com a dignidade da vida dos irmãos e pelo bem comum da sociedade. 


Fonte: https://www.cnbb.org.br/fe-e-compromisso-com-deus-e-com-o-proximo/

27 de fevereiro de 2026

Desconfiança é proteção: um guia antigolpe

Conscientizar e não impor medo: desconfiar de intenções duvidosas é uma forma de proteção

O envelhecimento da população brasileira é uma conquista social. Vivemos mais, participamos ativamente da sociedade e seguimos tomando decisões importantes sobre nossa vida, nosso patrimônio e nossa família. No entanto, junto com esse avanço, surge uma preocupação crescente: o aumento dos golpes direcionados à população idosa.

Infelizmente, pessoas idosas têm sido alvos frequentes de fraudes financeiras, golpes virtuais, assinaturas indevidas de documentos, falsas ofertas de ajuda e até promessas enganosas de doações ou benefícios.

Créditos: Arquivo CN.

Entre os golpes mais recorrentes estão os empréstimos consignados não contratados ou com valores superiores ao acordado, refinanciamentos feitos sem autorização e a inclusão de seguros e tarifas desconhecidas. Muitos aposentados só percebem o problema quando o valor do benefício já está comprometido por descontos excessivos, dificultando sua subsistência.

Diante desse cenário, desconfiar não é um sinal de fraqueza, mas de proteção. E a família tem um papel fundamental nesse processo, orientando sem gerar medo, pânico ou sensação de incapacidade.

Por que os idosos são mais visados pelos golpistas?

Os golpistas costumam explorar três fatores principais:

  1. Confiança excessiva, construída ao longo de uma vida em que a palavra tinha grande valor;
  2.  Menor familiaridade com tecnologias digitais, como aplicativos bancários, links, biometria e assinaturas eletrônicas;
  3.  Medo de perder benefícios, como aposentadoria, pensão ou acesso a serviços essenciais. Esses criminosos se apresentam, muitas vezes, como funcionários de bancos, órgãos públicos, como o INSS, advogados, instituições beneficentes ou até conhecidos, criando histórias convincentes e urgentes para confundir e pressionar a pessoa idosa.

A importância da orientação familiar sem causar medo

Um dos maiores erros no combate aos golpes é abordar a pessoa idosa com tom de ameaça ou pânico, dizendo frases como: "Você pode perder tudo" ou "Estão enganando idosos o tempo todo". Esse tipo de discurso pode gerar insegurança, vergonha e até isolamento.

A orientação deve ser pedagógica, respeitosa e contínua. A pessoa idosa não deve se sentir incapaz, mas sim fortalecida e informada. O ideal é que a família converse de forma tranquila, explique situações comuns de golpe e mostre que pedir ajuda é um ato de sabedoria, não de fraqueza.

Internet e celular: atenção redobrada

A internet trouxe muitos benefícios, mas também riscos. É importante orientar os idosos a:

Não clicar em links recebidos por WhatsApp, SMS ou e-mail, mesmo que pareçam oficiais; Desconfiar de mensagens com tom de urgência, como bloqueio de benefício, necessidade de atualização de dados ou promessa de valores inesperados;

Nunca informar senhas, códigos recebidos por SMS, dados bancários ou documentos pessoais por telefone ou mensagem.

A família pode ajudar configurando o celular, explicando passo a passo como identificar mensagens suspeitas e deixando claro que nenhum banco ou órgão público solicita informações sensíveis por esses meios.

Biometria e assinatura de documentos: cuidado essencial

Outro ponto sensível envolve o uso de biometria, assinatura física ou digital. Muitos golpes acontecem quando o idoso assina documentos sem compreender totalmente o conteúdo ou fornece biometria acreditando tratar-se de algo simples.

É fundamental reforçar que:

Nenhum documento deve ser assinado sem leitura completa e explicação clara;

* Biometria é como uma assinatura pessoal e não deve ser fornecida a terceiros, especialmente fora de bancos ou órgãos oficiais;
* Sempre que possível, um familiar ou pessoa de confiança deve acompanhar contratos, empréstimos ou alterações cadastrais.

Pessoas oferecendo ajuda ou doações: nem tudo é bondade!

Golpistas também se aproveitam da empatia e da boa-fé das pessoas idosas, oferecendo ajuda para resolver problemas, liberar benefícios ou até realizar doações para causas sociais. Nessas situações, a orientação é simples: ajuda verdadeira não exige pagamento antecipado, dados pessoais ou pressa.

Explique ao idoso que é válido agradecer, recusar educadamente e verificar com a família antes de aceitar qualquer proposta. Criar esse hábito é uma forma eficaz de proteção.


Desconfiar é um ato de cuidado

Ensinar o idoso a desconfiar não significa torná-lo medroso, mas sim consciente. A desconfiança saudável protege, preserva a autonomia e evita prejuízos emocionais e financeiros.

A família deve estar presente, disponível para ouvir e orientar, criando um ambiente de confiança. Quando a pessoa idosa sabe que pode perguntar, confirmar e pedir ajuda sem julgamentos, o risco de golpes diminui consideravelmente.

Em tempos de tantas armadilhas, informação, diálogo e afeto são as melhores defesas. Proteger a melhor idade é uma responsabilidade coletiva, construída com respeito, paciência e educação contínua.

Juliana Pimentel Miranda dos Santos
Advogada especialista em direito previdenciário e bancário
OAB/ES 13.286
@julianapimentel.adv


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/desconfianca-e-protecao-um-guia-antigolpe/

24 de fevereiro de 2026

A Oração na Quaresma: Um Diálogo que Transforma



Introdução

A Quaresma, tempo de graça e conversão, convida-nos a intensificar as práticas espirituais que nos aproximam de Deus. Entre elas, a oração ocupa um lugar central, sendo o diálogo que transforma a nossa vida e nos prepara para a celebração da Páscoa. Longe de ser um mero formalismo, a oração na Quaresma é uma oportunidade de aprofundar nosso relacionamento com o Pai, de nos abrirmos à Sua vontade e de nos deixarmos moldar pelo Espírito Santo [1].
Este artigo explora a importância da oração neste tempo litúrgico, destacando como ela se torna um caminho de transformação interior e de renovação da fé.


1. A Oração como Diálogo com Deus

A oração é, essencialmente, um diálogo com Deus. Na Quaresma, somos chamados a dedicar mais tempo e atenção a este diálogo, tornando-o mais profundo e sincero.
Encontro Pessoal: A oração nos permite um encontro pessoal com o Senhor, onde podemos apresentar nossas alegrias, tristezas, anseios e preocupações. É um momento para relaxar e entregar nossas preocupações a Deus, o que alivia a ansiedade e nos dá força [2].
Contemplação e Escuta: Mais do que falar, a oração é também escuta. Na Quaresma, somos convidados a silenciar o coração para ouvir a voz de Deus que nos fala através de Sua Palavra, da liturgia e dos acontecimentos da vida. A oração nos abre para a contemplação da vida e das realidades humanas à luz do transcendente [3].


2. A Oração que Transforma

A oração autêntica não nos deixa os mesmos; ela opera uma profunda transformação em nosso interior, moldando-nos à imagem de Cristo.
Renovação Espiritual: A oração fortalece a fé, acalma o coração, ilumina o caminho e aproxima o cristão da presença de Deus [4]. Ela nos ajuda a deixar de lado os pecados e a buscar uma vida mais alinhada com os ensinamentos de Jesus. É um tempo de arrependimento e renovação espiritual [5].
Discernimento e Vontade de Deus: Através da oração, buscamos discernir a vontade de Deus para nossa vida e nos dispomos a segui-la. Ela nos ajuda a compreender o verdadeiro sentido da Quaresma, que é preparar-nos para morrer para as coisas que tornam triste a vida, o pecado, e abrir-nos à luz do Ressuscitado [6].


3. Intensificando a Vida de Oração na Quaresma

A Quaresma oferece diversas oportunidades para intensificar nossa vida de oração.
Leitura Orante da Palavra: Dedicar tempo à Lectio Divina, meditando as Escrituras, especialmente os Evangelhos que narram a Paixão de Cristo, é um caminho privilegiado. A Palavra de Deus é alimento para a alma e guia para a nossa conversão.
Participação na Liturgia: A participação mais assídua na Santa Missa, nas celebrações penitenciais e na Via Sacra nos une à comunidade eclesial e nos permite vivenciar os mistérios da fé de forma mais profunda.
Adoração Eucarística e Rosário: Momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento e a recitação do Rosário são práticas que nos colocam na presença de Jesus e de Maria, fortalecendo nossa fé e nossa esperança.


Conclusão

A oração na Quaresma é um convite a redescobrir a beleza e a riqueza do nosso interior, onde Deus habita e nos fala. Que este tempo seja uma oportunidade para nos aproximarmos do Senhor através de um diálogo sincero e constante, permitindo que Sua graça transforme nossas vidas e nos prepare para celebrar, com um coração renovado, a vitória da Páscoa.


Referências

[2]: "Descubra Como a Oração Transforma Vidas: Lições Bíblicas Inspiradoras" - (Ideal Way Church )
[3]: "A Oração na Quaresma" - (CNBB )
[4]: "A Importância da Oração na Caminhada Cristã" - (RLC60 )
[5]: "A quaresma como um profundo significado espiritual para os cristãos" - (Cursilho )
[6]: "A oração no tempo quaresma" - (CNBB )

22 de fevereiro de 2026

As Tentações de Jesus e a Jornada Humana: Um Convite à Conversão



No 1º Domingo da Quaresma do Ano A, a liturgia nos convida a mergulhar no mistério das tentações de Jesus no deserto e a refletir sobre a condição humana diante do pecado e da graça. As leituras deste dia nos oferecem um panorama da história da salvação, desde a queda original até a vitória de Cristo sobre o mal, apontando para a nossa própria jornada de conversão.
A Primeira Leitura, do livro do Gênesis (2,15-17;3,1-7), narra a criação do homem e da mulher no Jardim do Éden e a sua queda. Deus, em sua bondade, concede-lhes a liberdade, mas também estabelece um limite: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente, astuta, seduz Eva, que, por sua vez, convence Adão a desobedecer. O pecado entra no mundo pela desobediência, e com ele, a vergonha, o medo e a separação de Deus. Esta passagem fundamental nos lembra da fragilidade humana e das consequências do pecado, mas também da liberdade que Deus nos concede para escolher entre a obediência e a desobediência .
O Salmo 51, um salmo penitencial, expressa o profundo arrependimento do pecador que reconhece sua culpa e suplica a misericórdia divina. "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a vossa bondade; segundo a multidão de vossas misericórdias, apagai a minha iniquidade" . O salmista clama por um coração puro e um espírito renovado, demonstrando a consciência da necessidade de purificação e a confiança na infinita compaixão de Deus. É um convite à contrição sincera e à busca do perdão divino.
Na Segunda Leitura, Romanos (5,12-19), São Paulo estabelece um paralelo entre Adão e Cristo. Se por um homem (Adão) o pecado entrou no mundo e a morte se estendeu a todos, por um só homem (Jesus Cristo) a graça transbordou, trazendo a justificação e a vida eterna. "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" . Paulo nos revela a superabundância da graça de Deus que, em Cristo, reverte os efeitos do pecado original. A obediência de Cristo na cruz redime a desobediência de Adão, oferecendo a todos a possibilidade de uma nova vida em comunhão com Deus.
Finalmente, o Evangelho de Mateus (4,1-11) nos apresenta Jesus sendo tentado pelo diabo no deserto. Após quarenta dias e quarenta noites de jejum, Jesus é confrontado com três tentações: transformar pedras em pão (poder material), lançar-se do alto do templo (poder espetacular) e adorar o diabo em troca de todos os reinos do mundo (poder mundano). Em todas as tentações, Jesus responde com a Palavra de Deus, demonstrando sua total fidelidade ao Pai. "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" . As tentações de Jesus são um modelo para nós, mostrando que a vitória sobre o mal se dá pela fé, pela obediência à Palavra e pela confiança em Deus.
Em síntese, as leituras deste 1º Domingo da Quaresma nos convidam a reconhecer nossa fragilidade diante do pecado, a buscar o perdão e a misericórdia de Deus, e a seguir o exemplo de Jesus na luta contra as tentações. É um tempo propício para a conversão, para renovar nossa fé e para nos aproximarmos mais de Deus, confiando na graça que nos é oferecida em Cristo.

Referências