Hoje, eu me deparo com uma verdade exigente: o sofrimento de cada dia precisa ser vivido com maturidade
Compreendo que o sofrimento inevitável não é um fim em si mesmo, mas um chamado e, portanto, uma resposta pessoal. Sabemos, segundo as Escrituras, que, com o pecado original, toda a humanidade passou a experimentar a inclinação ao pecado, gerando desordem, tristeza e angústia. E por nós mesmos, não conseguimos sair dessa condição.
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Se há, por um lado, uma distância infinita entre nós e Deus; por outro, é o próprio Deus quem toma a iniciativa de nos salvar. Na Bíblia Sagrada, contemplamos esse mistério: Deus se fez homem em Jesus Cristo, assumiu nossos pecados e, na cruz, tomou sobre si o castigo que nos cabia. Ele carregou nossas dores para nos reconciliar com o Pai.
Recentemente, conversei com um peregrino que visitava a Canção Nova. Em meio ao desabafo de suas dores, ele afirmou, com certa resignação, que nada podia fazer, pois acreditava que Deus queria que ele sofresse daquela forma. Diante disso, procurei acolhê-lo com empatia e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a enxergar além daquela visão. Deus jamais deseja o mal para Seus filhos.
Por um mistério insondável de Sua misericórdia, Ele é capaz de transformar o mal em um bem maior
Na bela passagem de 2 Coríntios 4, 17-18, Paulo cita: “Com efeito, o momentâneo, leve peso de nossa aflição, produz para nós uma glória incomensurável e eterna. Não temos como objetivo o que é visível, mas o que é invisível, pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno”.
A partir da própria história daquele peregrino, fui apontando sinais concretos da presença de Deus em sua vida, mesmo em meio às dificuldades. Ao final, seu olhar já não era o mesmo: havia ali uma centelha de esperança e gratidão. Saí daquele encontro profundamente tocada e rendi louvores a Deus por sua ação eficaz.
Lembrei-me de São Francisco de Sales que afirmava: “Já que a doença nos faz gemer e suspirar, suspiremos por Deus” (1)
Caro leitor, a vida não é feita apenas de sofrimentos. Fomos criados por amor, e isso significa que a nossa vida nunca encontra sentido apenas em nós mesmos. Estamos sempre direcionados para um sentido, ou seja, um propósito, uma missão, algo que vale a pena fazer, um encontro verdadeiro com o outro e principalmente com o sair de si.
Sair de si e ir ao encontro de alguém, e esse alguém pode ser Jesus
Ele sempre está de braços abertos a nos acolher. “ Trata-se de amar para viver na liberdade e na caridade, colocando toda confiança com verdadeira fé e intenso amor ao Seu Criador e Senhor.” (1.1)
Padre Jonas, em Nossos Documentos internos da Canção Nova, dizia que “viver da fé é um passo no escuro, é não saber o dia de amanhã. É não saber o futuro dos nossos filhos. É um passo dado no escuro, mas não um passo cego. É um passo dado na certeza do “sei em quem pus a minha confiança (2 ™ 1,12).” (2)
Somos chamados a dar uma resposta, e a vida nos interpela diariamente: o que faremos com aquilo que nos acontece? Não podemos escolher todas as circunstâncias, mas podemos escolher a atitude com que as enfrentamos.
E nesse itinerário existe em nós uma força, a Graça de Deus, que nos puxa para “mais”.
Afinal, o sentido da vida não está em “me sentir bem o tempo todo”, mas em me doar a algo maior do que eu.
Como afirma Viktor Frankl: “O que importa é a atitude adequada diante do sofrimento inevitável. O modo como o suportamos pode encerrar um sentido.” (3) Assim, mesmo nas dores, podemos encontrar um caminho de crescimento, fé e esperança, certos de que Deus caminha conosco e jamais nos abandona.
Eis um convite concreto e inadiável: não desperdiçar o sofrimento, mas integrá-lo à própria história num caminho de maturidade e encontro com Deus.
Que, nas horas difíceis, não nos fechemos em nós mesmos nem cedamos à tentação do desânimo, mas elevemos o olhar ao Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Em Cristo, nenhuma dor é estéril, nenhuma lágrima cai sem regar a terra do nosso coração.
E que, a cada dia, possamos dizer com serenidade e esperança: Senhor, eu confio em Vós! Viva Jesus!
Micheline da Silva Gomes Teixeira – Membro da Comunidade Canção Nova, desde 1998, no modo de compromisso do Núcleo.
