5 de outubro de 2026

Burnout parental: da cultura da performance ao sentido da vida

Como a cultura da performance alimenta o burnout parental e por que a Logoterapia nos convida a trocar a busca pela perfeição pela coragem de amar com humanidade

Parece insano, mas é preciso produzir, desenvolver competências, alcançar resultados, cuidar do corpo, administrar o tempo, construir uma carreira, manter relacionamentos saudáveis e, de alguma maneira, ainda encontrar disposição para cuidar dos filhos com paciência, presença e disponibilidade emocional. A cultura contemporânea nos diz, o tempo todo: você pode mais. Pode trabalhar mais. Pode aprender mais. Pode oferecer mais. Pode melhorar mais. E aquilo que, à primeira vista, parece uma mensagem de liberdade pode transformar-se rapidamente em uma nova e implacável forma de cobrança.

Crédito: Drazen Zigic / GettyImages

O autor Byung-Chul Han chamou a atenção para esse fenômeno ao descrever a passagem para a sociedade do desempenho, onde o indivíduo já não precisa que o outro seja a pressão, porque ele próprio se transforma em fiscal, cobrador e explorador de si mesmo, e essa lógica também invadiu a família. E talvez em nenhum outro lugar ela produza efeitos tão dolorosos quanto na experiência da parentalidade.

Um tribunal de avaliação permanente

Nunca tivemos tanta informação disponível e de modo automático acerca de como podemos educar as crianças. Há um grande número de métodos para dormir, alimentar, estimular, alfabetizar, brincar, conversar e disciplinar. Há especialistas para praticamente todas as questões da infância e milhares de conteúdos disponíveis a qualquer toque de tela.

Apesar disso, quanto mais informações, maior a sensação de que estamos falhando. A comparação é permanente: o filho do outro já lê, a filha da outra fala um segundo idioma, outra família viaja mais, outra criança parece equilibrada e sorridente em todas as fotografias das redes sociais.

Enquanto isso, dentro de casa, o cenário é outro: birras, desobediências, excesso de telas, tarefas escolares acumuladas, desavenças entre irmãos, noites mal dormidas e pais que, no final do dia, simplesmente estão sem energia. Surge então uma pergunta: “Será que estou fazendo o certo? Será que estou sendo uma boa mãe/um bom pai?”

É quando o amor começa a se transformar em desempenho e é quando a criança deixa de ser percebida como uma pessoa única a ser acolhida e passa a ser tratada como um projeto que precisa dar certo. Cada dificuldade torna-se um atestado de fracasso ou sucesso; para cada nota um julgamento; cada comportamento inadequado, uma culpa. E aquilo que deveria ser um encontro humano transforma-se em um tribunal de avaliação permanente, gerando o necessário para o que pode ser nomeado como burnout parental, um esgotamento dos pais.

O cansaço que vai além

É bem certo que pode aparecer o cansaço no processo de educar os filhos, considerando que exige tempo, renúncia, energia física, desgaste mental, ansiedade pelo resultado. O burnout parental, contudo, vai além do cansaço circunstancial e envolve um profundo esgotamento emocional, saturação diante das demandas cotidianas, distanciamento afetivo e a dolorosa percepção de que já não conseguimos ser a presença que gostaríamos para os nossos filhos; numa insatisfação interminável.

O principal e mais difícil é a contradição, pois justamente quando mais precisamos de proximidade, podemos nos sentir distantes daqueles que mais amamos. Continuamos funcionando no piloto automático ao preparar refeições, levar para a escola, organizar a rotina, resolver as pendências, mas, pouco a pouco, vamos parando de estar verdadeiramente presentes; apenas continuando a cumprir funções, mas perdendo o encontro com o filho.

Filho não é projeto

Para uma boa reflexão, vale a pena nos perguntar se estamos educando uma pessoa ou tentando fabricar um projeto, mesmo que a ideia de projeto seja com a melhor das intenções. Queremos proteger nossos filhos dos sofrimentos que experimentamos, oferecer o que não tivemos e prepará-los para um mundo competitivo. Mas existe um certo limite entre acompanhar alguém e tentar moldá-lo segundo as nossas expectativas. O filho não é uma extensão da biografia dos pais, tendo em vista que ele possui sua própria liberdade, sua história e seu mistério.

Nesse processo, corremos o risco de enxergar a educação como a tarefa de forçar a realidade a caber em um molde idealizado previamente, esquecendo que o verdadeiro papel parental consiste em preparar o terreno, proteger, nutrir e respeitar o ritmo próprio de crescimento de quem se ama. Em vez de perguntar “Que filho quero formar para satisfazer minhas expectativas?”, o caminho maduro nos convida a indagar: “Quem é este filho que recebi e como posso ajudá-lo a florescer em sua singularidade?” Educar não é fabricar; é acompanhar.

Do “como” ao “para que”

É exatamente nesse ponto que a teoria desenvolvida por Viktor Frankl, a Logoterapia, se torna uma bússola indispensável. Psiquiatra e neurologista, Frankl compreendeu que as pessoas são movidas pela vontade de sentido. Não vivemos apenas para buscar prazer ou evitar o sofrimento, mas precisamos encontrar uma razão pela qual a nossa vida e os nossos esforços valem a pena.

Muitos pais não estão apenas exaustos de fazer tantas coisas, mas estão exaustos de fazer tantas coisas sem conseguir perceber por que as fazem, visto que quando o sentido se perde, até o ato de cuidar vira um grande peso.

A cultura da performance está obcecada pelo “como”: Como educar melhor? Como otimizar o tempo? Como conseguir resultados? A Logoterapia nos conduz ao “para que”: Para que educamos? Para que estabelecemos limites? Para que vale a pena permanecer presentes?

Essa mudança de pensamento tende a libertar os pais da obsessão pelo controle dos resultados e pode devolver à responsabilidade concreta do momento presente. Assim, diante de uma birra ou de um dia difícil, a pergunta deixa de ser “O que um pai perfeito faria?” para se tornar: “O que este meu filho, nesta situação concreta, precisa de mim agora?”

Os três caminhos do sentido na vida familiar

Frankl identificou que podemos realizar sentido na existência por meio de três vias que encontram morada direta na rotina com os filhos:
Valores de criação (o que fazemos e oferecemos): O sentido habita nas pequenas obras cotidianas, que pode ser preparar uma refeição, contar uma história, ensinar um valor pelo exemplo, construir memórias simples. A cultura da performance mede a quantidade de produção; o sentido pergunta a quem estamos servindo pelo amor de nossos atos.

Valores de vivência (o que experienciamos e acolhemos): Manifesta-se na capacidade de contemplar. O abraço sem pressa, o sorriso inesperado, a pergunta curiosa, o silêncio compartilhado. Perdemos a capacidade de contemplar quando queremos transformar cada segundo da infância em um indicador de desempenho.

Valores de atitude (como lidamos com o inevitável): Educar envolve frustração, limites e erros. O sofrimento e o cansaço parental ganham sentido quando nos transformam por dentro, ensinando-nos a acolher a nossa própria vulnerabilidade com maturidade.

Guardiões do mistério de uma vida que desabrocha

Existe aqui uma ressonância profunda entre a Logoterapia e uma visão humanista e cristã da pessoa. Se ensinamos aos nossos filhos que eles só têm valor quando apresentam notas altas ou comportamentos impecáveis, reproduzimos dentro de casa a mesma engrenagem inadequada do mundo. Mas se queremos que eles experimentem o amor incondicional, isso precisa começar na forma como lidamos com os nossos próprios limites.

A vida não é um produto de alta performance, mas um dom e uma vocação. Os filhos não são propriedades ou troféus dos pais, mas pessoas confiadas à nossa guarda. O pai e a mãe são chamados a ser guardiões do mistério de uma vida que desabrocha.

Por isso, descansar não é fracassar, pedir ajuda não é incompetência, e reconhecer o cansaço não é falta de amor. Os filhos não precisam de robôs infalíveis e programados para a excelência, mas precisam de adultos reais, capazes de errar, pedir desculpas, rir de si mesmos e recomeçar.

Reencontrar o sentido do presente

A infância dos filhos não é uma preparação distante para a vida: ela já é a vida acontecendo agora. O antídoto para o burnout parental não está em fazer mais, otimizar mais ou buscar fórmulas mágicas de perfeição. O verdadeiro antídoto reside em resgatar o sentido do cotidiano: desligar o celular, olhar nos olhos, escutar a mesma história pela milésima vez, aceitar os próprios tropeços e simplesmente estar ali, presente.

A cultura da performance continuará perguntando o quanto conseguimos produzir, mas a ideia da logoterapia nos devolve a pergunta essencial: para que vale a pena viver? E, para quem educa, a resposta talvez esteja bem ali diante dos olhos, não sendo uma projeção de futuro idealizada, mas na pessoa única que nos convida, todos os dias, a trocar a ilusão da perfeição pela coragem de amar com humanidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/burnout-parental-da-cultura-da-performance-ao-sentido-da-vida/

2 de outubro de 2026

Apreço pela dignidade: o caminho para a reconstrução moral e social

A banalização do mal e a cultura da esperteza

Vai se tornando distante o tempo em que o ser humano considerava a sua própria dignidade como “o ouro” de sua vida. Lamentavelmente, cresce esse descaso em relação à dignidade: os avanços tecnológicos e comunicacionais contracenam com a perda do zelo pela própria honra.

Consequentemente, ocorre uma banalização do mal, conforme constatam os filósofos. Um contexto que desvirtua a própria definição sobre o que é bom, restringindo-a às vantagens para se alcançar o bem-estar social. Esse desvirtuamento leva à perda de limites e a atitudes motivadas pela sedução por riquezas. Há, pois, carência de uma experiência sapiencial capaz de configurar parâmetros que qualifiquem o agir moral. Com isso, processos existenciais e sociais são contaminados por mentiras e manipulações, corroendo os alicerces de uma sociedade justa e solidária.

dignidade - Multidão diversificada de pessoas e famílias reunidas num espaço público ao ar livre, vistas de costas, representando a comunidade e a cidadania consciente.

Foto ilustrativa: olaser / by Getty Images

Esquemas de “lavagem de dinheiro”, manipulações e aparelhamentos, em diferentes lugares, são sintomas da falta de uma experiência sapiencial. Não se busca sabedoria, ambiciona-se a esperteza. Aqueles que buscam construir a própria vida sobre os alicerces de lições sapienciais passam a ser percebidos com certa estranheza, pois torna-se cada vez cotidiana a opção pelas “facilidades” alcançadas via desonestidade. O núcleo mais recôndito da consciência é tomado por uma escuridão que sucumbe o sentido nobre dos valores éticos e dos princípios morais inegociáveis. O domínio do dinheiro destrói o apreço pela honestidade, desfigurando o ser humano, que passa a ser avaliado ou definido a partir de suas posses. A lógica que valoriza as posses, o poder e o dinheiro corrói a consciência moral.


Reconstruir a dignidade humana

O dinheiro seduz a tal ponto que se perde o bom senso, essencial para interromper os arquitetos de esquemas fraudulentos e aqueles que buscam manipular o semelhante, protegendo lisuras e a própria inteireza da dignidade humana. O viver humano, em seus muitos âmbitos, na política especialmente, mas também em outros campos, incluindo o religioso, está cada vez mais caracterizado por um relativismo que obscurece o sentido nobre e qualificado de cidadania.

Esse cenário induz muitas pessoas a alcançarem uma conclusão desesperadora: a sociedade brasileira não teria saída para seus principais desafios, pela falta de seriedade na regência de processos, pela adoção de descaminhos, com pessoas que ferem mortalmente as instituições. Um contexto institucional desacreditado perde a capacidade para alargar horizontes, gestar novas respostas capazes de recompor o tecido social.

O acentuado relativismo faz com que o ser humano não valorize a própria dignidade, dificultando o surgimento de qualificados líderes. Cria-se um vácuo perigoso, propício ao surgimento de tiranos que, sem limites éticos, vidrados no poder, perpetram genocídios, regozijam-se com ataques e a destruição do semelhante. Passam por cima de leis internacionais e de compromissos com a paz. Por isso mesmo, há tantas guerras, complexas e de variadas formas, entrincheirando gente nos “fronts” de seus interesses, sem o mínimo compromisso com o bem comum.

As portas se abrem a todo tipo de malevolência, vinganças e perversidades. Ao invés de lideranças confiáveis, dedicadas a qualificações sociais e políticas, convive-se com gente que se limita aos slogans fáceis, incapazes de ajudar na efetivação de esperadas conquistas pela sociedade. Um contexto que se agrava com a crise de credibilidade enfrentada pelos poderes que regem o Estado democrático de direito. A autoridade exercida de modo pouco altruísta perde a força essencial para inspirar transformações, levando instituições à derrocada e, consequentemente, o caos à sociedade. Para superar essa situação, os cidadãos devem reagir, mas jamais na via das radicalizações ou extremismos ideológicos.

Reação moral e apreço pela dignidade

A reação necessária é de ordem moral, cultivando o apreço pela própria dignidade, a exemplo do que faziam gerações antepassadas. Gera-se, assim, uma barreira que dificulta a proliferação do mal, debelando a sua força e abrindo alas para a vitória do bem. O contexto atual pede uma multidão de homens e mulheres que prezem, acima de tudo, por sua honra. Gente capaz de qualificar a cidadania e efetivar hábitos com a força para mudar rumos. Ecoem os preciosos ensinamentos do Papa Leão XIV, que cria a oportunidade de nova reflexão sobre a Magnífica Humanidade, a partir de sua carta encíclica.

Leão XIV lembra que a humanidade, criada por Deus, se encontra hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Pesa sobre os ombros da geração atual, frisa o Papa, a tarefa de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.

A tarefa e a responsabilidade envolvem todos, desafiando os cristãos a erguer os olhos para compreender e deixar-se interpelar pelo mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, que ilumina e dá sentido ao mistério da vida humana. O ponto de partida dessa grandiosa empreitada é o apreço pela própria honra. A decisão de ser honesto não custa fortunas, mas se configura como dinâmica revolucionária para produzir uma nova cultura. Essa decisão com força transformadora pede, pois, um gesto simples: o apreço pela própria dignidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/apreco-pela-dignidade/

30 de setembro de 2026

São Jerônimo: a Bíblia nos conduz a Cristo e transforma a fé

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

No dia 30 de setembro, a Igreja Católica celebra a memória de São Jerônimo, um dos grandes estudiosos das Sagradas Escrituras. No Brasil, essa data também encerra o Mês da Bíblia, celebrado durante todo o mês de setembro. Não poderia haver ocasião melhor para fazermos uma pergunta bastante simples: qual é o lugar que a Bíblia ocupa, de fato, em nossa vida?

Pintura renascentista de São Jerônimo em seu escritório, sentado a uma mesa de escrita. O santo, um homem idoso com uma barba branca longa e calva, veste um manto cardeal vermelho sobre túnica branca e está em pose contemplativa com a mão esquerda na têmpora. Ele escreve em um púlpito inclinado coberto com papéis. A mesa está repleta de papéis, óculos, uma lamparina e instrumentos de medição. Ao fundo, uma estante de livros com livros e pergaminhos encadernados. Um livro está aberto em um suporte de madeira à direita. O ambiente é um escritório ricamente decorado com cortinas de tecido. A obra apresenta cores quentes e detalhes texturizados, típicos de uma pintura a óleo.

Crêdito: Domínio Público, Domenico Ghirlandaio / Wikimedia Commons.

Muitos de nós temos uma Bíblia em casa. Talvez até mais de uma. Recebemos uma na catequese, compramos outra edição algum tempo depois ou ganhamos de alguém. Mas ter uma Bíblia não significa, necessariamente, conhecer a Sagrada Escritura.

E aqui podemos aprender muito com São Jerônimo. Ele dedicou grande parte de sua vida ao estudo da Palavra de Deus. Aprendeu línguas, pesquisou textos, estudou várias áreas do conhecimento e realizou um trabalho bíblico muito importante na história da Igreja: a tradução das Escrituras para o latim, conhecida como Vulgata.

Mas seria pouco olhar para São Jerônimo apenas como um grande intelectual. Todo aquele enorme esforço tinha uma finalidade muito maior. Ele queria conhecer cada vez mais profundamente a Palavra de Deus porque, por meio dela, queria conhecer Jesus Cristo. Não por acaso, é dele uma frase que atravessou o tempo e continua profundamente atual: Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.


A Bíblia nos conduz a Jesus

Às vezes, podemos cometer o erro de olhar para a Bíblia apenas como um conjunto de histórias antigas, normas religiosas, ensinamentos morais ou frases bonitas para utilizar em determinados momentos da vida.

Ela é muito mais do que isso. A Bíblia apresenta a história de salvação. E toda essa história converge para Jesus Cristo. Nesse sentido, ler a Bíblia é também percorrer um caminho semelhante ao vivido pelos primeiros discípulos. Eles caminharam com Jesus, ouviram Suas palavras, presenciaram Seus milagres, enfrentaram dúvidas e dificuldades e, pouco a pouco, foram descobrindo quem Ele realmente era.

A leitura bíblica também precisa nos colocar nesse caminho. Não lemos apenas para acumular informações sobre Deus. Lemos para conhecê-Lo. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos que São Jerônimo pode deixar para nós neste 30 de setembro. Ele empregou inteligência, estudo, disciplina e grande parte de sua vida para mergulhar nas Sagradas Escrituras. Mas não estudou a Bíblia simplesmente para conhecer melhor um livro. Buscou a Escritura para conhecer melhor uma Pessoa: Jesus Cristo.

Por isso, neste Dia da Bíblia, talvez o melhor modo de celebrar seja também o mais simples: pegar nossa Bíblia, abri-la e (re)começar a leitura e o estudo. Porque quanto mais conhecemos a Palavra de Deus, mais somos conduzidos Àquele que disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14,6).


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/sao-jeronimo-a-biblia/

28 de setembro de 2026

Por que adolescentes se submetem a desafios perigosos na internet?

Os adolescentes querem pertencer, encontrar um lugar no mundo, sentir que fazem parte de algo e considerar-se entre seus pares

Isso não é propriamente uma novidade dos adolescentes da geração atual. Cada geração atravessou a adolescência buscando referências para construir sua identidade, experimentando limites, questionando valores adquiridos e explorando aquilo que ainda desconhecia.

Crédito: nadia_bormotova/GettyImages

O que mudou foi o território onde a parte importante dessa experiência acontece

Se, para muitos pais, a juventude foi vivida predominantemente na rua, na escola, na praça, na igreja ou na casa dos amigos, hoje, uma parcela significativa das relações também acontece no ambiente digital. O grupo não termina quando o adolescente chega em casa. Ele continua no celular, nas redes sociais, nos jogos, nos vídeos e nas inúmeras comunidades às quais ele pode ter acesso.

Por isso, quando nos perguntamos por que um adolescente se submete a um desafio ou a riscos absurdos na internet, essa pergunta nos convida a olhar para além do comportamento em si. Ao perguntar “por que ele faria uma coisa disso?”, precisamos compreender também: o que ele acredita que poderá encontrar ao fazer isso?

Muitas vezes, a resposta é em algo profundamente humano: pertencimento, reconhecimento e validação.

A adolescência constitui um período particularmente especial às relações sociais. A influência dos pares ganha força, e ser aceita ou rejeitada pelo grupo pode adquirir um peso muito grande nas decisões. Pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento e Neurociência mostram, inclusive, que a presença e a avaliação dos pares podem aumentar a sensibilidade do adolescente às recompensas e influenciar sua disposição para assumir riscos. Isso não significa que o adolescente seja incapaz de pensar ou compreender consequências; significa que suas decisões são especialmente atravessadas pelo contexto social e emocional.

É justamente aí que o ambiente digital encontra um terreno fértil.

Quando o like significa mais do que um like

Uma curtida parece algo pequeno, por exemplo. Para quem está construindo sua identidade, entretanto, ela também pode funcionar como um sinal social: “viram você”, “aprovaram você”, “você pertence”. Isso, por sua vez, gera no adolescente uma recompensa que alimenta esse ciclo.

Antes, certos limites eram experimentados diante de um grupo relativamente pequeno. Hoje, um adolescente pode ultrapassar um limite diante de centenas, milhares ou até milhões de pessoas. Aquilo que começou como brincadeira pode permanecer registrado, ser compartilhado, transformado em constrangimento ou levar à necessidade de ir ainda mais longe para continuar recebendo a mesma atenção.

É nesse ponto que o desejo de pertencer pode encontrar o risco.

O grupo também ajuda a construir uma identidade

Durante a adolescência, ocorre um importante movimento de diferenciação em relação aos pais e de aproximação dos pares. O jovem começa a perguntar: Quem sou eu? Em que eu acredito? A qual grupo eu pertenço? Que tipo de pessoa quero me tornar?

É natural que os amigos adquiram importância. O problema surge quando o adolescente encontra no grupo, sobretudo em determinados ambientes digitais, sua única fonte de reconhecimento e referência.

Se você exigir limites constantes, aquilo que inicialmente causa desconforto pode, progressivamente, ser normalizado.

Podemos pensar, por exemplo, no contato com conteúdos pornográficos. Alguns adolescentes chegam a esse universo movido pela curiosidade, pela exposição acidental, pela descoberta distorcida da sexualidade ou até mesmo pela influência de seus pares. Em alguns casos, esse contato pode evoluir para padrões problemáticos de consumo, associados a diferentes fatores psicológicos e sociais, podendo gerar sofrimentos e prejuízos em diferentes áreas da vida, além de prejudicar sua dignidade humana.

O exemplo é importante porque revela algo maior: uma curiosidade pode abrir uma porta antes mesmo que o adolescente tenha recursos suficientes para compreender aquilo que encontra do outro lado. E isso vale para pornografia, desafios perigosos, exposição excessiva da intimidação, apostas, comportamentos autolesivos, consumo de substâncias ou outras experiências que possam circular e ganhar força nos grupos digitais.

Por isso apenas proibir dificilmente responde a toda a questão.

O jovem precisa encontrar um lugar antes que a internet lhe ofereça qualquer lugar

Família, escola, líderes religiosos e demais adultos de referência possuem aqui uma responsabilidade importante. Se queremos adolescentes capazes de dizer “não” diante de determinados convites, precisamos ajudá-los, muito antes desses convites aparecerem, a construir critérios para escolher — “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12).

Isso passa pela formação de valores, caráter, responsabilidade, autonomia, capacidade crítica e, sobretudo, por vínculos seguros.

Aqui, as relações familiares participam desse processo e podem atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção. Talvez precisemos conversar menos com nossos adolescentes somente depois que algo dá errado e conversar mais enquanto eles ainda estão tentando compreender o mundo.

Uma família que transmite valores não precisa ser uma família em que o jovem nunca “questiona”. Pode ser justamente aquela em que ele sabe que pode contar e até assumir um erro sem perder seu lugar dentro de casa.

Porque, no fundo, muitos adolescentes não estão procurando o “perigo” pelo perigo. Estão procurando reconhecimento, identidade, conexão e um lugar ao qual possam pertencer.

E talvez essa seja uma das tarefas mais importantes dos adultos diante da juventude contemporânea: não apenas ensinar aos jovens quais lugares devem ser evitados, mas ajudá-los a construir dentro de critérios suficientemente sólidos para reconhecer quais lugares merecem ser ocupados.

Porque, muitas vezes, eles não mergulham nesse mundo porque acreditam que ali é o seu lugar. Mergulham porque ainda não encontraram um lugar em que sintam que cabem.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/adolescentes-desafios-na-internet/

25 de setembro de 2026

Sabedoria do coração

A condição humana requer uma sabedoria que vem do coração


Tem seu papel aquele saber que vem dos livros, particularmente nas áreas técnica e profissional, mas nada substitui a sabedoria que nasce e é cultivada no próprio coração.

Metaforicamente, pode-se dizer que a sabedoria do coração é alicerce. Lacunas nessa sabedoria representam uma casa construída sobre a areia, e não sobre a rocha, e encontram reflexo nas estatísticas que mensuram a resistência do viver. Trata-se, pois, de um desafio existencial de ordem emocional e física que, quando não leva à atitude extrema do autoextermínio, leva o ser humano à perda do gosto pela vida, gerando solidão, isolamentos, com incidências na condição cidadã. Cria-se, assim, um contexto para a supervisão do egoísmo, da ganância desmedida, da mesquinhez e da indiferença em relação ao sofrimento alheio.

Crédito: nukrist / GettyImages

As consequências de uma sociedade adoecida

Sem a sabedoria do coração prevalece uma inquietude que expressa diferentes formas de vazio existencial tratados inadequadamente pela sociedade, a partir de muitas contradições. Chega-se a desconsiderar o sentido social do bem comum, a indispensável prática da solidariedade, passando a ser adotadas condutas incoerentes, distantes da ética e da moral. Ao invés de tratar lacunas existenciais, o que se efetiva é a construção de mais barreiras entre as pessoas, o enfraquecimento das instituições do Estado, confessionais e culturais, tão importantes para uma sociedade. Chega-se ao ponto crítico de, social e politicamente, aparentar não existir saída para as muitas crises e, por isso, ter que se conformar com a “babel” instalada no corpo da sociedade. Também o medo dos sofrimentos suporta o coração, configurando ações e escolhas que, cedo ou tarde, trazem consequências nefastas.

O coração humano passa a hospedar sentimentos que estão na contramão da verdade e da justiça. Deixa-se comandar por interesses espúrios e antiéticos, de modo geral atreladas à ambição desmedida por dinheiro, com sua força de sedução, inspirando arquiteturas perversas na sociedade. O medo em relação aos sofrimentos e o pavor diante da possibilidade da morte levam, assim, o ser humano a enfrentá-los por meio de soluções suicidas. Na reação ao medo, o antídoto para não se valer de estratégias suicidas é confiar na sabedoria do coração, que tem propriedades para forjar o altruísmo, o apreço pela simplicidade, a força para não se deixar dominar pela sede de poder. A sabedoria do coração hospeda o apreço pela ética e pela contundente oposição a todo tipo de manipulação, de hipocrisias. 

A espiritualidade como bússola

A sabedoria do coração é luz luzente, possibilitando ao ser humano relativizar o que, de fato, tem somente valor relativo, e cultivar o que é verdadeiramente absoluto. A prática da espiritualidade é o único caminho para tratar as tiranias do desejo que obscurecem o coração. A espiritualidade corrige hábitos e nutre uma inteligência que não tem medo do desconhecido, alimentando o desejo pela verdade, a fome e sede de justiça, erigindo no coração o altar no qual se inscreve o princípio cristão de considerar o semelhante como o mais importante, sobretudo os pobres, os indefesos, os enfermos e inocentes. Reveste-se o coração com valores que envolve os mistérios do amor de Deus pela humanidade, criando a oportunidade de experimentar a misericórdia divina, assimilada como parâmetro perfeito no tratamento do semelhante.

A sabedoria do coração se torna uma fonte de inspiração que gesta pessoas notáveis, não pelas posses, nem pelos títulos, mas em razão de cultivarem autoconhecimento. Seres humanos capazes de reflexão o que ensina São Gregório Magno, na sua sabedoria: “Nós estamos onde fixamos o olhar de nossa alma”. Importa, pois, restaurar o olhar na própria ferida. Trata-se de ponto de partida para assumir a própria fragilidade, não para justificá-la, mas para se aproximar de Deus, o verdadeiro amor. O abandono dessa experiência, ou um simples distanciamento, assoreia a sabedoria do coração, dando lugar à soberba, à ganância e às disputas fratricidas.

O ser humano, admitindo as enfermidades morais e espirituais, deve ouvir o conselho de São Bernardo: “Convém que o enfermo, se não pode ir tão longe ao encontro do médico, ao menos procurar erguer a cabeça e levantar-se à sua chegada. 10,8. Avança até a compunção do coração e à confissão dos lábios, para que ao menos saia do lamaçal de tua mísera consciência, pois não é lugar digno de que nele entre o autor da pureza.

Trilhar um caminho de espiritualidade é um broto de esperança para uma contemporaneidade que banaliza o mal, cultiva o distanciamento e a infidelidade aos princípios da honestidade. Enquanto trilha esse percurso, cultive o zelo pelo bem comum à luz da sabedoria do coração.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sabedoria-do-coracao/

23 de setembro de 2026

A transmissão de valores na família contemporânea

Uma perspectiva da análise existencial de Viktor Frankl

A família contemporânea enfrenta desafios inéditos: rotinas cada vez mais aceleradas, relações marcadas pela dispersão e uma crescente sensação de desorientação quanto ao papel dos pais e dos educadores, e é diante desse cenário que surge uma pergunta: como transmitir valores significativos às novas gerações quando as próprias referências culturais parecem cada vez mais fragmentadas e instáveis?

Fotografia em close de uma família demonstrando afeto. Um pai e uma mãe, ambos de olhos fechados, beijam carinhosamente a cabeça de seu bebê, que está deitado entre eles com os olhos abertos e uma expressão tranquila. A mãe veste uma blusa branca com listras escuras, o bebê usa uma roupinha clara listrada e o pai veste uma camiseta branca. O clima transmitido é de amor, união e acolhimento familiar.

Foto Ilustrativa: StefaNikolic by Getty Images

“Os valores que realmente permanecem não são aqueles que ensinamos aos filhos, mas aqueles que eles aprenderam a reconhecer em nossa maneira de viver.”

A questão é ainda mais profunda porque educar não significa apenas transmitir informações, regras ou preparar os filhos para o mercado de trabalho. Educar significa ajudá-los a descobrir aquilo que merece ser buscado, amado e realizado. Significa oferecer referências que permitam distinguir o essencial do acessório e construir uma existência capaz de responder, com liberdade e responsabilidade, aos desafios da vida.

É nesse horizonte que a Análise Existencial e a Logoterapia, desenvolvidas por Viktor Frankl, oferecem uma perspectiva particularmente fecunda. Para Frankl, a pessoa humana é orientada para o sentido. A vida não é simplesmente algo que recebemos; ela nos convida continuamente a responder às situações concretas que nos são apresentadas.

Contudo, para compreender como os valores ultrapassam o campo teórico e se concretizam na vida cotidiana, é possível estabelecer um diálogo interessante entre o pensamento de Frankl e as contribuições de outros três importantes pensadores: Max Scheler, Anselm Grün e Francisco Faus.

1. A herança de Max Scheler: a objetividade dos valores

Antes de refletirmos sobre a prática educativa da família, é importante considerar uma das principais fontes filosóficas do pensamento de Viktor Frankl: a Axiologia, ou Teoria dos Valores, de Max Scheler.

Scheler defendia que os valores não são simplesmente invenções humanas ou convenções sociais passageiras, mas possuem uma dimensão objetiva. A consciência humana seria capaz de apreender os valores, reconhecendo aquilo que se apresenta como bom, belo, justo e digno de ser realizado.


Essa perspectiva possui consequências importantes para a educação familiar. Se os valores fossem apenas construções arbitrárias, cada geração poderia simplesmente estabelecer aquilo que considera conveniente. Se, ao contrário, existem valores que podem ser reconhecidos como significativos para a realização humana, a educação passa a ter também uma dimensão de formação da consciência e do discernimento.

Nesse sentido, os pais não são aqueles que simplesmente “criam” os valores que deverão ser transmitidos aos filhos. Sua tarefa consiste, antes, em ajudá-los a desenvolver uma consciência capaz de reconhecer aquilo que é nobre, justo e verdadeiramente humano nas situações concretas da vida cotidiana.

Educar para os valores significa criar condições para que os filhos aprendam a perceber o valor presente nas pessoas, nas relações e nas escolhas. Não se trata apenas de dizer o que é certo ou errado, mas ajudar o filho a desenvolver uma sensibilidade capaz de reconhecer que determinada escolha é boa, justa ou digna.

Outro aspecto fundamental é a hierarquia dos valores, visto que para Scheler, os valores apresentam diferentes níveis e graus de importância. Nesse sentido, um dos grandes desafios da família consiste em evitar inversões, nas quais o consumo, a utilidade, o conforto, a aparência ou o desempenho passem a ocupar um lugar superior às virtudes, aos vínculos afetivos e aos valores éticos e espirituais. Em uma cultura na qual se confunde felicidade com sucesso, realização com desempenho e valor pessoal com produtividade, ajudar os filhos a estabelecer uma hierarquia saudável de valores torna-se uma tarefa educativa essencial.

2. A tríade da Logoterapia: como o sentido se manifesta

A partir de sua interlocução com a tradição fenomenológica e com a filosofia dos valores, Viktor Frankl desenvolveu uma compreensão da realização humana centrada na busca de sentido, de modo que a pessoa encontra possibilidades de sentido por meio de três caminhos fundamentais: os valores criativos, os valores vivenciais e os valores atitudinais.

Valores criativos: estão relacionados àquilo que a pessoa realiza, produz ou oferece ao mundo por meio do trabalho, das tarefas, da criação e do cuidado com os outros; na família, isso significa envolver os filhos em responsabilidades reais da vida doméstica e comunitária. Pequenas tarefas, quando realizadas com responsabilidade, deixam de ser simples obrigações e tornam-se oportunidades de participação e serviço.

Valores vivenciais: dizem respeito àquilo que a pessoa recebe da realidade: a experiência da beleza, da natureza, da arte, da cultura, dos relacionamentos e, sobretudo, do amor. Na família, o afeto genuíno permite que a criança experimente algo fundamental: seu valor não depende exclusivamente daquilo que realiza ou produz. Uma criança que percebe que é amada não apenas quando obtém boas notas, vence uma competição ou corresponde às expectativas dos pais, começa a desenvolver uma experiência mais profunda de dignidade pessoal.

Valores de atitude: dizem respeito à maneira como a pessoa se posiciona diante daquilo que não pode modificar (sofrimento, perdas, limitações e frustrações inevitáveis). Na família, a maneira como os pais enfrentam momentos de crise, fracasso, perda ou dificuldade pode constituir uma forma de educação importante. Os filhos observam não apenas o que os pais dizem sobre coragem, esperança e responsabilidade, mas como reagem quando a vida não corresponde às suas expectativas. É aqui que a educação para os valores encontra uma de suas expressões mais concretas: ensinar não apenas a buscar uma vida sem dificuldades, mas a encontrar uma resposta humana e digna diante das dificuldades que inevitavelmente surgirão.

3. Anselm Grün: a força dos rituais e a espiritualidade do cotidiano

Se Scheler e Frankl oferecem elementos importantes para compreender a estrutura dos valores e a busca humana por sentido, Anselm Grün nos ajuda a perceber como esses valores podem ser incorporados à experiência cotidiana, visto que não se sustentam apenas por meio de discursos. Precisam ganhar corpo, forma e presença na vida concreta e é nesse sentido que os rituais familiares adquirem importância.

Em uma sociedade conectada, marcada pela velocidade e pela dispersão da atenção, práticas simples podem funcionar como verdadeiros recipientes de sentido, como exemplo, abençoar os filhos antes de dormir, realizar refeições juntos à mesa, celebrar aniversários, cultivar momentos de silêncio, conversar sobre o dia ou reservar um tempo para a reflexão.

Os rituais organizam o cotidiano, oferecem continuidade em meio às mudanças, criam espaços de pertencimento, segurança emocional e reconhecimento. Além disso, permitem que as crianças experimentem os valores antes mesmo de compreendê-los conceitualmente.

Uma refeição compartilhada pode, por exemplo, transmitir a importância da presença, da escuta e da comunhão sem que seja necessário transformar o momento em uma aula sobre esses valores: uma celebração familiar pode ensinar gratidão; um momento de silêncio pode ensinar interioridade; o pedido de perdão pode ensinar humildade; e a presença dos pais diante da dificuldade pode ensinar solidariedade.

É a repetição afetuosa dessas pequenas práticas que constrói memórias significativas e, ao longo do tempo, tendem a permanecer como referências interiores e como uma espécie de âncora existencial diante das tempestades da vida adulta, de modo que aquilo que parece pequeno aos olhos de um adulto pode adquirir uma importância extraordinária na memória afetiva de uma criança.

4. Francisco Faus: o cultivo do caráter e o exemplo vivo

Para que os valores não permaneçam no campo dos desejos abstratos, Francisco Faus chama a atenção para a importância do cultivo das virtudes e da formação do caráter.

Os valores tornam-se efetivamente operantes quando se transformam em hábitos bons, isto é, em virtudes. Esse processo exige exercício, repetição, perseverança e, sobretudo, paciência por parte dos pais e educadores. A educação, portanto, não acontece apenas quando os pais explicam o que é certo ou errado. Ela acontece também quando os filhos observam como os adultos vivem aquilo que ensinam.

É difícil ensinar responsabilidade quando os próprios adultos não assumem as consequências de suas escolhas. É difícil ensinar respeito quando a comunicação familiar é marcada pela agressividade. É difícil ensinar verdade quando pequenas mentiras são justificadas como convenientes. O testemunho dos pais constitui, assim, uma espécie de linguagem silenciosa da educação.

Faus adverte tanto contra a tentação do autoritarismo quanto contra a excessiva permissividade. Entre esses dois extremos, encontra-se uma educação baseada em dois pilares fundamentais:

A pedagogia do exemplo: as crianças possuem uma extraordinária capacidade de perceber incoerências entre o discurso e a prática dos adultos. Os pais ensinam a verdade quando procuram cumprir a própria palavra; ensinam o respeito quando sabem pedir desculpas; ensinam a generosidade quando compartilham o que possuem; ensinam a responsabilidade quando assumem as consequências de seus atos. O exemplo cotidiano possui uma força educativa que nenhum discurso consegue substituir.

A firmeza amável: educar exige constância, paciência e capacidade de estabelecer limites; sem autoritarismo, mas com autoridade dos pais. Corrigir um filho com amor não significa humilhar ou controlar, mas sim reconhecer sua capacidade de crescer, amadurecer e tornar-se responsável por suas próprias escolhas. A firmeza amável não é incompatível com o afeto; pelo contrário: quando exercida com respeito e coerência, pode ser uma das expressões mais concretas do amor educativo.

Considerações finais: o lar como farol de sentido

A transmissão de valores na família não exige pais perfeitos, mas pais presentes, coerentes e autênticos. A educação dos filhos acontece no modo como os pais se tratam, na maneira como enfrentam as dificuldades, no respeito pelas pessoas, na relação com o trabalho, no uso do tempo, na capacidade de pedir perdão, na maneira de lidar com o fracasso e até mesmo na forma como silenciam.

Ao unir a percepção dos valores, a busca de sentido, a importância dos rituais cotidianos e a formação do caráter, podemos compreender a família não apenas como um espaço de convivência ou de organização da vida doméstica, mas como um lugar privilegiado de formação humana e de descoberta de sentido.

Em uma sociedade marcada por mudanças rápidas, excesso de informações e referências muitas vezes contraditórias, os filhos necessitam de algo que nenhuma tecnologia pode oferecer: relações significativas, presença, pertencimento e testemunhos concretos de que a vida possui valor.

É nas palavras ditas e nas silenciadas, nas pequenas responsabilidades, nas refeições compartilhadas, nas correções feitas com respeito, nos momentos de sofrimento e nas demonstrações gratuitas de amor que os valores deixam de ser conceitos e passam a fazer parte da existência.

No fundo, talvez seja essa a grande responsabilidade dos pais: não apenas ensinar aos filhos quais valores devem orientar a vida, mas oferecer-lhes uma experiência concreta de que esses valores são possíveis, desejáveis e capazes de dar sentido à existência.

A família que cultiva o amor, a responsabilidade, a esperança e o testemunho vivo, oferece às novas gerações um dos bens mais preciosos que alguém pode receber: a experiência de que a vida, mesmo diante das dificuldades e dos limites, pode ser vivida com sentido e dignidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/a-transmissao-de-valores-na-familia/

21 de setembro de 2026

A Bíblia no Dia a Dia: Pão que Alimenta, Luz que Orienta

Setembro é, na Igreja, o Mês da Bíblia. Não é por acaso — é um convite anual a redescobrir o Livro que não envelhece, a Palavra que foi antes de tudo e permanecerá depois de tudo

Como proclama a própria Bíblia: “A tua palavra é farol para os meus passos e luz para os meus caminhos” (Sl 119,105). Não uma luz de estádio, que ilumina tudo de uma vez, mas uma lâmpada — que ilumina o passo seguinte, o suficiente para caminhar com confiança.

Segundo a Bíblia, a missão masculina é uma missão sacrificial

Créditos: Duncan_Andison by GettyImages/cancaonova.com

Vivemos numa época de muita informação e pouca formação. Consumimos conteúdos em segundos e raramente deixamos que alguma coisa nos transforme por dentro. A Bíblia não funciona assim. Ela pede tempo, silêncio, disponibilidade. Ela não quer ser lida como se fosse uma notícia — quer ser habitada como se fosse uma casa.

São Jerônimo: o homem que amou as Escrituras até o fim

A Igreja celebra São Jerônimo no dia 30 de setembro, e não é por acaso que o Mês da Bíblia termina com a sua festa. Jerônimo foi um dos maiores estudiosos das Escrituras de todos os tempos. Foi ele quem traduziu a Bíblia do hebraico e do grego para o latim — a chamada Vulgata —, tornando a Palavra de Deus acessível ao mundo ocidental durante séculos. Mas Jerônimo não era apenas um intelectual. Era um homem apaixonado. Disse ele, numa frase que ficou para a história: “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo.” Para ele, não conhecer a Bíblia era não conhecer o próprio Senhor. Retirou-se para Belém, próximo da gruta do Nascimento, e ali passou décadas a estudar, traduzir e comentar os textos sagrados. O seu exemplo interpela-nos: se um homem do século IV, sem internet, sem bibliotecas digitais, dedicou a vida inteira à Palavra, o que nos impede?

Monsenhor Jonas Abib e o amor à Palavra

No coração da Comunidade Canção Nova, o fundador Monsenhor Jonas Abib sempre proclamou que a Bíblia não é um livro de decoração — é o manual de vida do cristão. Com a sua característica simplicidade e ardor evangelizador, ensinou gerações a abrir as Escrituras com fé, a ler com o coração e a deixar que a Palavra mudasse a vida por dentro.

Para Monsenhor Jonas, ler a Bíblia era um ato de amor. Era sentar-se diante de Deus e ouvi-Lo falar. Essa espiritualidade ecoa o que o profeta Jeremias confessava: “Eu devoro as tuas palavras onde as encontro, e eu as comi; a tua palavra é a minha alegria e as delícias do meu coração” (Jr 15,16). Não é leitura por obrigação, mas alimento por amor — porque a Palavra nutre o que o mundo não consegue saciar.

Como tornar a Bíblia parte do dia a dia

Jesus, no Evangelho de Mateus, é bem claro: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). A Palavra não é um complemento espiritual — é necessidade vital. Assim como ninguém sobrevive sem comer, a alma cristã não cresce sem o alimento das Escrituras.

Setembro é o momento de recomeçar ou aprofundar este hábito. Não é preciso ler livros inteiros de uma vez. Basta um capítulo ou até mesmo um versículo, lido devagar, relido com atenção, deixado a repousar no coração ao longo do dia. A lectio divina — leitura orante da Bíblia — é uma prática milenar que continua atual: lê, medita, ora e contempla. Mas Monsenhor Jonas vai além e ensina um novo método, simples, revolucionário e eficaz (como no livro A Bíblia no Meu Dia a Dia).

A Canção Nova convida cada pessoa a abrir a Bíblia este mês com olhos novos, deixando que São Jerônimo nos inspire com o seu rigor apaixonado. Deixe que Monsenhor Jonas nos lembre que a Palavra é alegria e não peso. E deixe que o próprio Deus nos diga, como disse a Josué: “Que as palavras do livro desta Lei jamais se afastem da tua boca; medita-o constantemente, e observa tudo quanto nele se contém” (Js 1,8).

A Bíblia está à sua espera. Abra-a. Habite-a.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/biblia-no-dia-dia-pao-que-alimenta-luz-que-orienta/