2 de setembro de 2026

Eu realmente preciso opinar sobre tudo?

Aprender a ouvir antes de querer opinar sobre tudo

Você já reparou como parece que, hoje em dia, precisamos ter uma opinião sobre tudo? Ouvimos alguém contar sobre algo e, automaticamente, vem uma vontade quase incontrolável de opinar. Claro que o direito de expressão e de manifestação do que pensamos é justo e digno.

É saudável para cada um de nós que tenhamos a liberdade de pensar com a própria cabeça e dizer o que sentimos. Mas basta olhar para a cultura do cancelamento e para os “fiscais da vida alheia” para notar uma dinâmica cruel: a tecnologia acabou dando voz (e poder) a uma legião de pessoas capazes de julgar e opinar sobre a vida de quem sequer conhece.

Mulher usando celular enquanto é cercada por balões de diálogo, representando a influência das opiniões nas redes sociais.

Crédito: sefa ozel / Getty Images.

Invadimos os perfis de pessoas desconhecidas por nós (pelo menos quando pensamos em intimidade) e damos opiniões: “eu faria diferente”, “isso é ridículo”, “você fala isso porque é rico ou pobre”. Essas e outras frases as encontramos aos montes nas redes sociais. Às vezes, nem percebemos o quanto fazemos isso. Parece natural. Como se ter uma opinião nos obrigasse, automaticamente, a compartilhá-la e, por vezes, até ofender o outro.

Ter opinião, evidentemente, não é um problema. Saber o que pensamos, reconhecer nossos valores e conseguir nos posicionar diante da vida é importante. A questão começa quando acreditamos que toda opinião precisa ser expressa, que toda escolha do outro precisa ser comentada ou que, de alguma maneira, precisamos mostrar às pessoas como elas deveriam conduzir a própria vida.

Muitas polêmicas causadas pelos questionamentos em redes sociais parecem ser uma voz que clama por algo, por mudança. Mas será que o verdadeiro ativismo consiste apenas em dar opiniões públicas? É um comportamento preocupante, muito amplificado pelas redes. Parece haver a crença de que ser implacável com os outros é uma forma de transformação. Mas limitar o engajamento a tuítes e cobranças pontuais não passa de uma falsa sensação de dever cumprido. É como se falar e dar opinião fosse uma forma efetiva de ação e de mudança do mundo, quando não é.

Quando confundimos a preocupação com controle

Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer antes de falar seja muito simples: “Essa pessoa pediu a minha opinião?”

Pode parecer uma pergunta óbvia, mas ela muda completamente a forma como nos relacionamos. Quando uma pessoa nos conta algo, precisa, na maioria das vezes, ser ouvida, e atualmente, parece que há muita dificuldade em apenas ouvir, acolher as preocupações do outro, encontrar alguém para desabafar. E, quando respondemos imediatamente com conselhos, julgamentos ou críticas, podemos acabar interrompendo justamente aquilo que ela mais precisava naquele momento: ser acolhida.

Imagine, por exemplo, que alguém próximo diga: “Estou passando por uma fase muito difícil no meu casamento”. Antes mesmo de ouvir a história inteira, podemos pensar: “Você precisa se separar”, “Eu já tinha percebido que ele não era uma boa pessoa” ou “Se fosse comigo, eu não aceitaria isso”. Mas será que é disso que aquela pessoa precisa? Talvez ela só queira contar o que está vivendo. Talvez ainda esteja tentando entender o que sente, ou esteja confusa, ou ainda nem saiba que decisão tomar.

Quando alguém desabafa sobre uma crise, o impulso imediato costuma ser dar conselhos ou julgar a situação. No entanto, ouvir não significa concordar nem assumir a responsabilidade pelas escolhas do outro, mas  oferecer escuta, presença e respeito. Lembrando que a nossa régua nem sempre servirá para o outro.

O problema é que frequentemente confundimos preocupação com controle. Queremos proteger quem amamos, mas esquecemos uma verdade essencial: não podemos viver a vida dos outros. Cada um deverá viver suas escolhas e aprender com elas. O que eu vivi nem sempre será molde para a vida do outro. E cabe uma boa pergunta:  “estou ajudando ou apenas impondo meu ponto de vista?”

Amar e respeitar o outro não significa querer decidir por ele

Amar e respeitar o outro exige reconhecer os limites entre nós e ele. Nem toda crítica precisa ser dita, nem toda escolha alheia precisa da nossa aprovação, e saber quando escolher o silêncio é uma das maiores demonstrações de sabedoria.

Isso acontece muito dentro das famílias. Pais que continuam tentando decidir a vida dos filhos adultos, irmãos que acreditam saber o que é melhor para os irmãos, amigos que se sentem responsáveis pelas escolhas uns dos outros. A intenção, muitas vezes, pode até ser boa. Queremos proteger quem amamos, evitar que a pessoa sofra, impedir que ela cometa os mesmos erros que nós cometemos. Só que existe uma verdade difícil de aceitar: não podemos viver a vida do outro por ele.

E aqui existe uma reflexão ainda mais profunda: por que sentimos tanta necessidade de opinar?

Será que realmente queremos ajudar? Ou será que temos dificuldade em aceitar que alguém pense diferente de nós? Será que precisamos sentir que estamos certos? Será que ficamos desconfortáveis quando não conseguimos controlar uma situação? Será que acreditamos que, se não interferirmos, algo ruim necessariamente acontecerá?

Nem sempre a nossa necessidade de opinar tem relação com o outro. Às vezes, ela revela uma necessidade nossa de controle, de reconhecimento ou até de segurança.

Quando conseguimos perceber isso, começamos a desenvolver uma relação diferente com as nossas próprias opiniões. Não precisamos abandoná-las. Não precisamos concordar com tudo. Não precisamos nos tornar pessoas passivas ou indiferentes. O que precisamos aprender é que ter uma opinião e precisar expressá-la são duas coisas diferentes.

Essa diferença pode parecer pequena, mas faz uma enorme diferença nos relacionamentos.


O valor da escuta é fundamental para um relacionamento de confiança e empatia

Imagine quantas discussões poderiam ser evitadas se, antes de responder, fizéssemos uma pequena pausa. Quantas conversas seriam diferentes se, em vez de imediatamente aconselhar, perguntássemos: “Você quer ouvir o que eu penso ou só precisa conversar?”. Quantas relações poderiam ficar mais leves se entendêssemos que nem toda diferença precisa ser corrigida?

Talvez uma das perguntas que mais podem nos ajudar, embora desconfortável, seja: “Eu estou dizendo isso porque realmente pode ajudar ou porque preciso que o outro pense como eu?”

No consultório, muitas vezes, percebemos o quanto essa dificuldade de respeitar o espaço do outro pode estar presente nas relações. E aprender a estabelecer limites não significa apenas dizer “não” quando alguém invade o nosso espaço. Também significa aprender a reconhecer os limites que existem entre nós e o outro. Cada um tem responsabilidade sobre suas próprias escolhas.

Expressar pontos de vista é saudável, mas o policiamento moral constante compromete o bem-estar e as relações. Nem toda opinião precisa ser compartilhada e nem toda a escolha das outras pessoas precisa da nossa aprovação.

Talvez a resposta para “Preciso opinar sobre tudo?” Seja simples: Não. Ter pontos de vista e discordar é natural, mas nem todo pensamento exige uma intervenção. Muitas vezes, o melhor a oferecer não é um conselho ou julgamento, mas escuta, presença e respeito. Afinal, uma das maiores demonstrações de maturidade é ter o que dizer e, ainda assim, escolher o silêncio.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/eu-realmente-preciso-opinar-sobre-tudo/

31 de agosto de 2026

As telas e a alma: um convite ao equilíbrio

Compreender quem somos é o passo fundamental para usar a tecnologia com sabedoria

Poucas questões contemporâneas tocam tão profundamente a vida interior quanto a relação que estabelecemos com as telas. Presentes em quase todos os momentos do dia, elas moldam hábitos, afetam a atenção e, como veremos, influenciam diretamente a nossa capacidade de pensar, de nos recolher e de orar. Compreender o que somos e como o nosso cérebro responde a esses estímulos é o primeiro passo para usar essa tecnologia com sabedoria — e não ser usado por ela.

Mulher diante de uma tela de computador, representando os efeitos do uso excessivo da tecnologia sobre a atenção e a vida cotidiana.

Crédito: Cecilie_Arcurs / Getty Images.

Seres humanos e animais: o que nos distingue

O naturalista Carl Von Linné, em sua obra Systema Naturae (1735), classificou todos os seres vivos em uma hierarquia de categorias — reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie — e criou a nomenclatura binomial, pela qual cada espécie recebe dois nomes em latim (gênero e espécie, como Homo sapiens). Nessa classificação, nós, seres humanos, pertencemos à ordem dos Primatas e à espécie Homo sapiens. Vale notar que o chimpanzé, nosso parente mais próximo dentro dessa ordem, compartilha cerca de 98% do nosso DNA. No entanto, segundo a ciência, o que verdadeiramente nos distingue é a cognição e a cultura acumulada.

Cognição, cultura acumulada e a visão católica do ser humano

A cognição é o conjunto de processos mentais pelos quais conhecemos e interagimos com o mundo: percepção, atenção, memória, linguagem, raciocínio, resolução de problemas e tomada de decisão. Em outras palavras, é o modo como o cérebro recebe a informação, processa-a, armazena-a e a utiliza para agir.

Já a cultura acumulada é o conhecimento, as técnicas, os costumes e as descobertas que cada geração transmite à seguinte, somando-se ao longo do tempo: cada geração parte de onde a anterior parou, em vez de recomeçar do zero. É isso que permite à humanidade construir sobre o passado — ninguém precisou reinventar a roda, a escrita ou a agricultura; herdamos essas conquistas e as acrescentamos às nossas. Esse acúmulo é o que distingue a nossa cultura da “cultura” rudimentar de outros animais, como os chimpanzés que transmitem o uso de uma ferramenta, pois neles o conhecimento não se expande de forma cumulativa e duradoura como no ser humano.

Nós católicos sabemos, porém, que há uma característica fundamental que nos diferencia dos demais animais: somos criados à imagem e semelhança de Deus, conforme Gênesis 1,26-27: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança… Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Além disso, o Senhor colocou os animais sob o nosso domínio, conforme Gênesis 1,28: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”

Telas e cérebro: o que a ciência revela

Mas o que isso tem a ver com as telas? O uso passivo — o scroll sem objetivo, o consumo compulsivo de conteúdo de baixa qualidade — está associado a piores resultados, incluindo o declínio da memória verbal e da cognição global. Ou seja: o problema não é a tela em si, mas o que se faz com ela.

O córtex cerebral, camada externa do cérebro, é responsável pelas funções mais nobres e complexas: pensamento, raciocínio, memória, linguagem, percepção sensorial (visão, audição e tato), planejamento e controle dos movimentos voluntários. É ele que nos permite interpretar o mundo, tomar decisões e coordenar ações conscientes — sendo, proporcionalmente, a região mais desenvolvida no ser humano. O seu afinamento, ou seja, a redução da espessura dessa camada, pode acarretar prejuízos cognitivos e emocionais, conforme a região afetada e a intensidade. Entre os efeitos mais comuns estão:

  • Dificuldade de atenção e concentração — o córtex pré-frontal, responsável pelo foco e pelo controle de impulsos, é uma das áreas mais sensíveis.
  • Perda de memória — sobretudo a memória de trabalho e a capacidade de reter informações novas.
  • Declínio da função executiva — planejamento, tomada de decisão, resolução de problemas e flexibilidade mental ficam comprometidos.
  • Alterações emocionais — maior irritabilidade, ansiedade e dificuldade de regulação emocional.
  • Redução do QI e da velocidade de processamento — em casos mais acentuados, como apontam estudos sobre o uso excessivo de telas em jovens.

É importante ressaltar que o afinamento cortical faz parte do envelhecimento normal e também ocorre em condições como demências e transtornos psiquiátricos.

Efeitos em adultos, crianças e adolescentes

Em adultos jovens (18–25 anos), estudos indicam que o uso excessivo pode provocar o afinamento do córtex cerebral e a redução da massa cinzenta em regiões ligadas à tomada de decisão. O termo “cérebro podre” (brain rot) foi eleito a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, refletindo essa preocupação cultural.

Em crianças e adolescentes — o grupo mais vulnerável — o consenso é mais forte: o uso excessivo pode causar alterações físicas no cérebro, como danos à substância branca e ao córtex, comprometer funções cognitivas, reduzir o QI, atrasar a linguagem e aumentar sintomas compatíveis com o TDAH quando a exposição ultrapassa cerca de duas horas por dia. A substância branca, formada principalmente por axônios revestidos de mielina — a bainha gordurosa que acelera a transmissão dos sinais elétricos — é a “rede de cabos” que conecta as diferentes regiões do cérebro entre si e com o restante do corpo. Quando danificada, a comunicação entre as áreas fica comprometida, afetando atenção, memória e coordenação.

Mas não é só isso. Um grande estudo de 2025, publicado no Psychological Bulletin, reunindo 71 pesquisas e quase 100 mil pessoas, confirmou que o consumo de vídeos curtos (TikTok, Reels, Shorts) está associado à piora da cognição e da saúde mental, com impacto negativo moderado. Os principais prejuízos recaem sobre a atenção e o controle inibitório — a capacidade de frear impulsos. O mecanismo é o chamado “loop de dopamina”: o formato de rolagem infinita entrega recompensas rápidas e imprevisíveis a cada gesto, ativando o circuito de dopamina do cérebro — o mesmo acionado pelos jogos. Isso treina a mente a esperar estímulos curtos e constantes, reduzindo a atenção sustentada e aumentando a fragmentação cognitiva, isto é, a dificuldade de manter uma linha de raciocínio.

Os efeitos específicos encontrados incluem: redução da atenção sustentada e dificuldade de concentração em tarefas longas; prejuízo na retenção de informações e na memória de trabalho; menor autocontrole e maior tendência ao phubbing (ignorar pessoas para olhar o celular); procrastinação acadêmica em universitários, mediada pela perda de controle atencional; e associação com ansiedade, estresse e piora do bem-estar. Adolescentes e adultos jovens são os mais afetados, pois o cérebro ainda está em desenvolvimento e o hábito se consolida cedo. Em crianças, o alerta é ainda maior, pois a exposição precoce pode reduzir a capacidade de atenção em uma fase crítica de formação.


Consequências para a vida de oração

O uso excessivo de telas atinge diretamente quase todas as dimensões da vida espiritual. O silêncio e o recolhimento são os mais prejudicados: a rolagem infinita e o loop de dopamina mantêm a mente em agitação constante, tornando quase impossível o estado de quietude interior que a oração exige. A perseverança e a fidelidade ao horário fixo sofrem com a fragmentação da atenção e o enfraquecimento do autocontrole — o mesmo mecanismo que provoca a procrastinação nos estudos também dificulta a manutenção de uma rotina de oração. A humildade e a confiança — a “entrega” de Santa Teresinha — são corroídas pela ansiedade, pelo estresse e pela comparação constante que o feed estimula, alimentando o ego e a dispersão. Por fim, a leitura espiritual (lectio divina) é diretamente atacada pela redução da atenção sustentada e da memória de trabalho: um cérebro habituado a estímulos de quinze segundos encontra grande dificuldade para se aprofundar em um texto longo.

Conclusão

É isso, meus irmãos. Que Deus nos conceda a sabedoria de usar os benefícios das telas de maneira equilibrada, para que as distrações deste mundo não nos afastem d’Ele.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/telas-e-alma-um-convite-ao-equilibrio/

26 de agosto de 2026

O lugar da refeição na vivência da fé em família

É na família que colocamos em prática o Evangelho nas ações do dia a dia

A Igreja cristã primitiva se reunia nas casas das famílias, onde se partia o pão, se compartilhavam os bens, se faziam orações e se celebrava a Eucaristia. Essa ideia de Igreja doméstica foi bastante trabalhada no Magistério de São João Paulo II. De acordo com o Papa das famílias, “a Igreja Universal, e nela cada Igreja Particular, revela-se de maneira mais imediata e concreta como esposa de Cristo na «igreja doméstica» e no amor aí vivido: amor conjugal, amor paterno e materno, amor fraterno, amor de uma comunidade de pessoas e gerações” (Gratissimam Sane, 19).

Família reunida à mesa durante uma refeição, com as mãos dadas em oração antes da refeição.

Crédito: andreswd by Getty Images.

É na família que recebemos – ou deveríamos receber – a catequese com as primeiras noções da fé. Nela também colocamos em prática o Evangelho através das renúncias, da doação, do zelo e dos cuidados com o outro, assim como das orações para as diversas circunstâncias vividas.

Toda essa dimensão se aprofunda ainda mais quando vivemos, dentro da própria família, os mistérios da fé. Muitas vezes, os pais católicos, por receio de os filhos se sentirem forçados a seguir uma religião, caem em outro extremo: o de não lhes ensinarem a viver a fé. 

Ensina a criança o caminho que deve seguir

A palavra nos ensina o seguinte: “Ensina à criança o caminho que deve seguir, que não se afastará dele, mesmo quando envelhecer” (Pr 22,6).

Quando, desde cedo, vivemos com os nossos filhos o dia a dia da fé – incluindo grandes celebrações como  Páscoa, Natal, tempos litúrgicos ou festas importantes da Igreja –, vamos incutindo neles o gosto e o entendimento sobre o que professamos. Dessa forma, embora nem sempre consigam compreender inteiramente questões profundas da doutrina, vai sendo despertado neles o desejo de compreender, na vivência diária, as razões do que cremos e celebramos. 

O sentido da refeição na Palavra de Deus

Um momento singular para transmitir e viver a fé dentro da família é a refeição. A simbologia desse ato perpassa toda a Sagrada Escritura. Em Gênesis, vemos que Abraão, quando recebeu a visita de anjos em forma humana, preparou para eles uma refeição durante a qual os visitantes levaram ao casal idoso a promessa divina de que Sara ficaria grávida apesar da velhice. Oferecer refeição é dar ao outro acolhimento e espaço em nossa família. Também Isaque, antes de abençoar o filho que seria seu primogênito, pediu que este lhe preparasse uma refeição que precederia o momento solene da bênção.

Na cultura judaica, sentar-se à mesa com alguém para refeição significa criar vínculo. Cristo foi diversas vezes criticado por comer com pecadores e publicanos. E ele o fazia a fim de mostrar unidade com essas pessoas como fez com Levi (cf Mc 2,15-17); Zaqueu (cf. Lc 19,1-10) ou os irmãos Lázaro, Marta e Maria (Lc 10,38-42).

Foi na Última Ceia que o Senhor revelou diversos ensinamentos a Seus discípulos, anunciou a traição, deixou o discípulo amado reclinar em seu peito (cf Jo. 13) e instituiu a Eucaristia ( Lc 22), que  é, em amplo sentido, uma refeição; há nela também o significado de partilha, doação e sacrifício.

O livro de Apocalipse também fala das bodas do Cordeiro, onde um banquete aguarda aqueles que abraçaram o chamado à santidade. O reino dos Céus é, portanto, comparado a um grande banquete, festa na qual viverão os que foram salvos por Cristo. Esses são apenas alguns  exemplos de como a mesa é para os cristãos lugar e sinal de harmonia, bênção, unidade, revelação, ensinamento e oração. 

O lugar da refeição na vivência da fé em família

As famílias precisam aproveitar, todos os dias, desta riqueza de sentido da que há na refeição em comum. Apesar do ritmo frenético e de uma agenda lotada de atividades, parar e sentar-se à mesa com os nossos é uma forma de lembrarmos do que mais importa e do que dá sentido àquilo que realizamos. É o momento de reconstruir ou construir laços, de ser presença na vida de cada um, ouvir suas lutas e dores e compartilhar vivências. É ainda a oportunidade de os pais transmitirem a fé com histórias, respostas às perguntas, e (por que não?), com seu próprio testemunho de vida.

Um breve testemunho

Em casa, temos o costume de levar a catequese e o ensinamento bíblico aos nossos filhos na hora do jantar. Lemos a Bíblia, histórias de santos ou outras com ensinamentos de virtudes. Além disso, ouvimos seus relatos e buscamos com eles os ensinamentos que partem das experiências do dia.

No domingo, Dia do Senhor, nosso momento especial é a hora do almoço: mesa posta com detalhes de flores e fotos da família ou algo sobre uma data importante; além disso, comidinha feita com um pouco mais de capricho e… histórias, perguntas sobre a fé ou conversas que ajudaram em seu desenvolvimento. As crianças auxiliam a pôr a mesa  e criam brincadeiras para depois. Cada um tem o seu lugar e sua função.

Como toda família com pequenos, às vezes tem choro de quem não quer comer, birras chamadas de atenção para quem quer sair logo, a fim de brincar… Mas percebemos que eles já esperam por esses momentos e sentem falta quando falta um detalhe ou outro.


É na família que o Reino de Céu se constrói

Precisamos redescobrir nossos lares como Igreja doméstica e acolher a refeição à mesa como espaço de transmissão de memória, identidade e fé.

Como querer que nossos filhos obedeçam a Deus se não cultivarmos essa Aliança com eles e  investirmos tempo nesse exercício?

É na família que o Reino de Céu se constrói: a fé nasce, cresce e se torna uma árvore frondosa que serve de sustento para vida e sustento no futuro.



Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/o-lugar-da-refeicao-na-vivencia-da-fe-em-familia/

22 de agosto de 2026

Maria, a Rainha que une o céu e a terra

A imagem de Nossa Senhora no nosso coração

Parece ser fácil falar sobre Nossa Senhora, afinal, ela é Mãe! Que filho não sabe dizer algo da sua mãe? A palavra “mãe” significa muito, porque a imagem de cada uma delas (ao menos da maioria) está, com certeza, gravada no coração de seu filho.

Mas, neste dia dedicado a Nossa Senhora, é importante e válida uma reflexão mais profunda: Como está a imagem dela dentro de seu coração de filho? Será que ela não precisa de alguns ajustes?

Pintura clássica de Nossa Senhora de Schoenstatt (Mãe Três Vezes Admirável), retratando a Virgem Maria com um véu claro e manto azul, segurando com ternura o Menino Jesus nos braços. Ambos possuem auréolas douradas sobre um fundo em tons de ocre e marrom.

Mãe Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt / Domínio Público

Deus criou Maria como a pessoa que une a terra ao céu, conduzindo-nos sempre a Jesus. Precisamos sempre de novo nos decidir por Ela, a fim de nos aproximarmos sempre mais do céu. Na coroação de Nossa Senhora, no Santuário de Pompeia, na Itália, o Papa São Paulo VI disse que, assim como aquela imagem de Maria havia sido reparada e decorada, “a imagem de Maria que todo o fiel tem em seu interior seja igualmente restaurada, renovada e enriquecida. Precisamos restaurar nos nossos corações o culto devido a Nossa Senhora… reacender em nós a verdadeira e correta devoção a Maria Santíssima” (23.04.1965).

Cada festa Mariana quer nos ajudar no trabalho da restauração da imagem de Maria em nosso interior, pois em cada uma delas, Deus comunica para nós a Sua própria imagem de Maria, assim como está nos planos eternos de salvação.

O que significa para mim ter uma Mãe que é Rainha?

O dia de Nossa Senhora Rainha é uma dessas celebrações litúrgicas que, em orações, cantos, iconografias etc., traz para nós a verdade proclamada pela Igreja, a realeza de Maria, que é sempre lembrada pela oração: Salve Rainha Mãe de Misericórdia, que rezamos no final de cada terço, no Ofício, Rainha dos Céus, cantado no Tempo de Páscoa, no quinto mistério glorioso do terço, e em tantas outras orações e iconografias que apresentam a coroação de Maria na glória do Céu. O Papa Pio XII escreve a fundamentação teológica da realeza de Maria, na Encíclica “Ad coeli Reginam” (A Rainha do Céu). É importante sabermos de tudo isso.

Mas quem é Maria Rainha para mim pessoalmente? O que significa ter uma Mãe – que é, ao mesmo tempo, Minha Rainha? Que imagem de Maria Rainha está gravada em meu coração? Aproximo-me do céu quando essa imagem é restaurada em meu coração.

Maria é Mãe e também Rainha

São duas realidades que pertencem a essa Mulher, escolhida por Deus, para ser a Mãe Imaculada de Jesus e de cada um de nós. Duas verdades que mostram como deve ser a nossa relação com Maria, nossa Mãe Santíssima: Diante da Mãe, sou filho. Diante da Rainha, sou súdito.

Maria Rainha sempre me conduz para junto de Deus de modo bem pessoal. Ela repete, sempre de novo, o pedido para mim: “Fazei tudo o que meu Filho vos disser!” (Cfr. Jo 2,5). Ela me ensina a ter a atitude de servo, mesmo sem entender tudo, assim como ela disse, na hora da Anunciação: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Como Rainha, ela me ensina que, mesmo que nada seja impossível para Deus, eu devo colocar as mãos à obra e fazer a minha parte. Isso ninguém pode e deve fazer em meu lugar, como diz o lema do Movimento Apostólico de Schoenstatt: “Nada sem Vós, Maria, nada sem mim!”.

Maria é Rainha, a mulher vestida do sol

Ela está entre o céu e a terra, tem a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas na sua cabeça! Que, em dores de parto, se confronta com o demônio que quer devorar o seu Filho, e dá à luz um Filho homem, que há de reger todas as nações com o cetro de ferro! (Cfr. Ap, 12, 1-6).

Mons. Jonas Abib ensina que “essa mulher, que a Palavra cita, é Maria. O dragão é o demônio, o grande adversário de Jesus, que queria acabar com Ele no ventre de Sua mãe. O demônio também é o grande adversário da mulher, pois ela gerou o Filho de Deus, cuidou d’Ele, foi aos pés da cruz e subiu aos céus. A cada dia, a vinda de Jesus se aproxima… Nesse tempo, enquanto Ele não chega, o demônio está colocando todos os esforços para acabar com nossos filhos, com nosso casamento, com a Igreja e com cada um de nós. Nossa luta é contra o demônio e as forças infernais. Temos uma Rainha Mãe, temos uma intercessora, ela nos assiste e está ao nosso lado, mas quem luta somos nós.”


Ela é a vencedora de todo mal

Ao lado de Jesus, Maria Rainha está junto de nós como Vencedora do poder do mal. Onde sua mão toca o maligno se afasta. Ela quer vencer o demônio em todo o mundo, por meio de nós, seus filhos. Por isso, cada um de nós, como seu filho e servo, deve ser como os seus pés que “esmagam a cabeça da serpente”, em cada escolha que fazemos no dia a dia. Padre José Kentenich pede a Ela: “Esmaga, através de nós, a cabeça da serpente que continuamente te rouba as almas e que, com violência, perturba no mundo a paz prometida aos povos. Por meio de nós, Cristo percorra o nosso tempo, pronto para a luta e a vitória” (Rumo ao Céu, 48-49).

É por meio de nosso coração, de nossas escolhas diárias de provar por meio de ações e comportamento o nosso amor a Ela, que a mão de Maria Rainha une o Céu e a Terra. Se realmente a temos como nossa Mãe Rainha, ela media a Paz que nosso coração tanto procura, a paz que vem de Jesus, o Príncipe da Paz.

Por isso, neste dia em que a Igreja faz memória à Maria Rainha, ao terminar de ler esse artigo, olhe para dentro de si mesmo e reflita, diante da imagem de Nossa Senhora: Como posso restaurar, renovar e enriquecer a sua verdadeira imagem em meu coração? Como, por minhas atitudes, posso manifestar às pessoas com quem me encontro que Nossa Senhora é minha Rainha?

Que esse dia não passe em branco, mas, pela imagem de Maria, o céu toque o seu coração e o de muitas outras pessoas por meio de você.

Ir. M. Isabel Machado, ims


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/maria-rainha-que-une-o-ceu-e-terra/

20 de agosto de 2026

São Carlo Acutis: um santo que nos ensina a incluir

São Carlo Acutis não ficava indiferente

Em uma época marcada pelo desafio de construir relações mais humanas e combater o bullying, a vida de São Carlo Acutis apresenta uma mensagem profundamente atual: ninguém deve ser deixado de lado.

Relatos de pessoas que conviveram com Carlo mostram sua atenção aos colegas que eram deixados de lado. Ele se aproximava daqueles que enfrentavam dificuldades e chegou a defender um colega com deficiência que sofria provocações e bullying. Ele não enxergava aquele colega apenas como alguém que precisava de ajuda. Ele o reconhecia como amigo.

Aqui encontramos uma das grandes lições de sua vida para a Igreja e para a sociedade: inclusão começa quando deixamos de olhar para a deficiência como aquilo que define uma pessoa e passamos a enxergar o ser humano, sua história, seus sentimentos, seus dons e sua dignidade.

Quando percebia que alguém estava sendo humilhado, Carlo não ficava indiferente. Quando via alguém sozinho, aproximava-se. Quando encontrava alguém que precisava de amizade, oferecia amizade.

 

Créditos: Arquivo pessoal / carloacutis.com

Uma fé que se transforma em atitude

São Carlo Acutis é conhecido por sua profunda devoção à Eucaristia e por seu desejo de levar outras pessoas a conhecer Jesus. Sua vida espiritual, porém, não o afastava das pessoas. Pelo contrário: quanto mais se aproximava de Cristo, mais se aproximava dos irmãos. Sua fé estava ligada ao serviço e à amizade.

Isso nos ensina algo fundamental: uma Igreja que deseja ser inclusiva precisa formar pessoas capazes de enxergar o outro e agir.

Não basta dizer que todos são bem-vindos. É preciso perguntar: Quem está sozinho? Quem está sofrendo? Quem está sendo deixado de lado? Quem precisa de um amigo?

Carlo nos ensina a não passar indiferentes

Quando falamos da inclusão das pessoas com deficiência, pensamos, com razão, em acessibilidade física: rampas, banheiros adaptados, lugares adequados, recursos de comunicação e outras estruturas necessárias.

Tudo isso é importante, mas São Carlo Acutis nos lembra que existe uma barreira ainda mais profunda: a barreira da indiferença. Uma igreja pode ter acessibilidade arquitetônica e, mesmo assim, alguém pode continuar se sentindo sozinho.

Podemos oferecer estruturas e recursos, mas, se não houver amizade, respeito, escuta e fraternidade, a inclusão permanecerá incompleta.

Carlo nos apresenta um caminho simples e concreto: aproximar-se.

Incluir também é sentar ao lado, conversar, defender quem sofre, convidar para participar, reconhecer os dons do outro e construir amizades verdadeiras.

“Todos nascem como originais”

Uma das frases mais conhecidas de Carlo Acutis afirma: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.”

Essa frase ilumina profundamente nossa compreensão sobre a inclusão. Cada pessoa é única. Cada pessoa tem uma história. Cada pessoa possui dons que Deus colocou em sua vida. Por isso não podemos reduzir alguém à sua deficiência.

Uma pessoa com deficiência não é apenas alguém que precisa receber. Ela também tem muito a oferecer. Pode evangelizar, servir, rezar, participar das pastorais, desenvolver seus talentos e testemunhar a presença de Deus.

Uma Igreja verdadeiramente inclusiva não pergunta somente: “O que podemos fazer por essa pessoa?” Ela também pergunta: “O que essa pessoa pode oferecer à comunidade?”

Essa mudança de olhar transforma a maneira como acolhemos.

O combate ao bullying começa no coração

O testemunho de Carlo também fala diretamente às famílias, escolas, paróquias e grupos de jovens. O bullying não é uma simples brincadeira. Ele pode ferir profundamente a dignidade de uma pessoa e deixar marcas que permanecem por muitos anos. Carlo percebeu isso e não escolheu o silêncio.

Seu exemplo nos convida a ensinar crianças e jovens a reconhecer a dignidade de cada colega. É preciso formar uma geração que não transforme a diferença em motivo de humilhação e que tenha coragem de defender quem está sendo injustiçado.

O cristão não pode ser espectador diante do sofrimento:

  • – Quando alguém é humilhado, a caridade nos chama a nos aproximar.
  • – Quando alguém é excluído, o Evangelho nos chama a acolher.
  • – Quando alguém é ferido, somos chamados a cuidar.

O que Carlo pode ensinar às nossas paróquias?

A inclusão começa com um simples gesto: chamar alguém pelo nome, sentar ao seu lado e dizer: “Venha, fique conosco”. Esse gesto aparentemente pequeno pode revelar o rosto de Cristo.

São Carlo Acutis morreu jovem, mas sua vida continua falando especialmente às novas gerações. Ele mostrou que é possível viver a santidade no cotidiano: na escola, entre amigos, na família, na paróquia e junto daqueles que sofrem.

Sua santidade não o afastou do mundo. Fez com que ele olhasse para o mundo com os olhos de Cristo, e nos recorda que a inclusão começa pelo coração.

  • Antes de construir uma rampa, precisamos construir pontes.
  • Antes de criar uma pastoral, precisamos criar vínculos.
  • Antes de falar sobre inclusão, precisamos aprender a amar.

Talvez essa seja uma das maiores lições que São Carlo Acutis deixa para nós: quando encontramos Jesus, não conseguimos permanecer indiferentes diante daquele que sofre.

Que nossas paróquias sejam lugares onde ninguém seja motivo de riso, ninguém seja deixado para trás e ninguém precise perguntar se existe lugar para ele.

Porque, onde Cristo está, sempre existe lugar para mais um.


Cynthia Santos é mestra em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-Minas, católica comprometida com a evangelização, com uma trajetória dedicada à comunicação, à cultura e à inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como produtora criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/sao-carlo-acutis-um-santo-que-nos-ensina-incluir/

18 de agosto de 2026

Renovados pelo Espírito Santo

A força do Alto

Muitas vezes, a nossa experiência de fé e o nosso Batismo no Espírito Santo podem assemelhar-se àquela figueira estéril mencionada no Evangelho, que raramente produz frutos. No caminho cristão, não basta ostentar um título ou participar de grupos; é necessário que a estrutura da nossa alma seja fecundada e testada, não por critérios humanos, mas pela força do alto.

A desertificação espiritual

Vivemos em um tempo onde a desertificação física do planeta reflete uma preocupação global, com desertos avançando milhares de quilômetros e a escassez de água atingindo até países ricos em recursos hídricos, como o Brasil. Da mesma forma, em nossas vidas, pode acontecer uma desertificação espiritual.

Crédito: Mystockimages by GettyImages

O “rio caudaloso” do Espírito Santo está à disposição, mas, frequentemente, criamos barragens e comportas em nossos corações. O desejo de receber o Espírito muitas vezes vem acompanhado de restrições: “Eu quero o Espírito Santo, mas não quero esse negócio de cair”. No entanto, para receber esse banho de regeneração, é preciso estar disposto a passar pelo que os apóstolos passaram no Pentecostes, permitindo que o Espírito rompa nossas resistências.

Chamados para a transformação

O Espírito Santo sopra onde quer e Sua ação é o motor de tudo o que é bom na Igreja. Os grandes santos afirmam que qualquer sinal manifesto de Deus é obra direta do Espírito. Por isso o convite hoje é para deixar que Ele atinja as profundezas da sua história pessoal e complete todo o seu ser.

Não fomos chamados para ficar “trancados em casa”, evitando os ventos da vida; fomos chamados para a transformação. O Espírito Santo transforma tudo o que toca, e se nossa vida ainda não mudou, é porque ainda não permitimos que Ele toque em nossa história. É preciso ter coragem para se lançar nessas águas, pois esse rio deixa saúde por onde passa.

Sinais da água viva

A verdadeira experiência do batismo no Espírito Santo é visível pelos rastros que deixamos. Podemos aprender com a natureza: assim como as formigas deixam um odor que serve de guia para as outras, o cristão cheio do Espírito deve ser um sinal da água viva.

Infelizmente, quando não vivemos essa experiência de forma autêntica, acabamos deixando rastros de:

  • Desamor;
  • Desânimo;
  • Desunião e discórdia.

O objetivo da vida no Espírito é chegar ao ponto de “não conseguir mais nadar”, ou seja, deixar de caminhar apenas por esforços próprios para ser conduzido pela correnteza de Deus. Quando conseguirmos espalhar os rastros do amor de Deus por onde passarmos, poderemos dizer, com convicção, que experimentamos a vida em plenitude.

 

Trecho retirado do livro “Renovados pelo Espírito Santo” 

Pe. Léo, SCJ (09/10/1961  04/01/2007)

Adaptação: Amanda Martins


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/espirito-santo/renovados-pelo-espirito-santo/

17 de agosto de 2026

A vocação das Missionárias da Divina Revelação no coração da Igreja

Um Carisma para a Nova Evangelização

Nós, Missionárias da Divina Revelação, somos uma comunidade religiosa que nasceu na cidade de Roma, diretamente do coração da Virgem Maria para toda a Igreja.

Vivemos a experiência da responsabilidade de trazer conosco um carisma tão necessário para os nossos dias e, ao mesmo tempo, a alegria de poder, com a nossa pequena oferta quotidiana, oferecer aos irmãos aquilo que recebemos do tesouro da Igreja. Nossa comunidade é de recente fundação: nascemos na aurora do terceiro milênio, em 2001, sob o pontificado de São João Paulo II, para nos dedicarmos à Nova Evangelização.

Créditos – Arquivo Comunidade MDR

O apelo da Virgem Maria em Tre Fontane

Tudo começou, porém, no dia 12 de abril de 1947, quando, em Roma, mais precisamente na localidade de Tre Fontane, a Virgem Maria apareceu em uma colina para converter um protestante que se encontrava profundamente enfurecido com a Igreja Católica. Seu nome era Bruno Cornacchiola. Nessa aparição, totalmente singular, nossa Mãe disse a Bruno, entre muitas outras coisas, que ele precisava entrar novamente na Santa Igreja, que é o “Santo redil, Corte Celeste na Terra”. A Virgem Maria apresentou-se de modo materno, mas também muito sério, trazendo consigo as Sagradas Escrituras nas mãos, e disse a Bruno — e, por meio dele, a cada um de nós: “Sejam Missionários da Palavra da Verdade”.

“Quem evangeliza Roma, evangeliza o mundo”

Com esse chamado no coração, desejamos viver a missão que nos foi confiada: ajudar nossos irmãos a conhecer e amar cada vez mais a Igreja, através dos meios e das oportunidades que o Senhor coloca diante de nós. De fato, em Roma, onde vivem todas as irmãs, realizamos um intenso apostolado na diocese e descobrimos uma grande missão de evangelização através da arte, que, nesses últimos anos, tem nos permitido contemplar muitos frutos na vida das milhares de pessoas que passam por nós. Não temos dúvidas de que quem evangeliza Roma evangeliza o mundo todo!

A identidade e o carisma

O próprio nome “Missionárias da Divina Revelação” manifesta a identidade e o carisma que recebemos: um amor profundo e apaixonado pela Palavra de Deus e pelos “Três Amores Brancos” que a Virgem da Revelação indicou como tesouros da Igreja: a Eucaristia, a Imaculada e o Papa. Por meio da catequese, queremos ajudar a torná-los cada vez mais conhecidos, amados e vividos, permanecendo sempre em plena comunhão e fidelidade ao ensinamento da Igreja.

Como afirma a nossa Regra de Vida: “As Missionárias da Divina Revelação se sentem apóstolas do mistério da Igreja: pensam como pensa a Igreja de sempre, amam como ama a Igreja de sempre, querem o que quer a Igreja de sempre”. Essa profunda união com a Igreja orienta a nossa missão e dá forma à nossa maneira de viver e anunciar a fé.

Os significados do hábito e da saudação

Também o nosso hábito recorda visualmente a presença de Deus na nossa vida. As suas cores são inspiradas naquelas com as quais se apresenta a Virgem da Revelação: o verde, que nos recorda Deus Pai Criador; o branco, que representa o Filho Redentor; e o rosa, que simboliza o Espírito Santo Santificador. Assim, através desses sinais, somos continuamente chamadas a recordar que Deus deve ocupar o primeiro lugar em toda a nossa existência, pois somente Ele é o nosso verdadeiro Bem e o nosso Fim último.

A nossa saudação, “Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja”, é aquela que a própria Virgem da Revelação nos deixou como expressão de unidade e de paz. Com simplicidade filial, dirigimo-la a todas as pessoas que encontramos. É uma invocação que pode acompanhar cada momento da vida e que nos recorda a nossa condição de filhos de Deus, levando aos corações uma mensagem de confiança, proteção e paz.

Viver a consagração sob o olhar de Maria

Olhando para Maria, Mãe da Igreja e nossa Mãe, e seguindo também o exemplo da nossa fundadora, Madre Prisca, que procurou imitá-la com humildade e simplicidade, procuramos acolher todos os dias, com gratidão, o dom da nossa vocação. A vida comunitária torna-se, assim, um caminho de fraternidade alegre e de crescimento no amor, alimentado pelo desejo de nos deixarmos preencher cada vez mais por Deus, para podermos oferecer esse amor a uma humanidade que tem profunda necessidade de ser acolhida, amada e conduzida ao encontro com Ele.

A nossa consagração também nos chama a viver uma entrega verdadeira e materna ao próximo, participando da maternidade espiritual de Maria. Renunciamos a muitas coisas, mas jamais renunciamos ao amor. Pelo contrário, a liberdade interior que nasce da entrega de tudo a Deus permite-nos oferecer-nos com maior disponibilidade aos irmãos, colocando a nossa vida a serviço daqueles que o Senhor coloca no nosso caminho.

Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja!

 

Irmã Catarina Berion MDR
Missionárias da Divina Revelação


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/vocacao/a-vocacao-das-missionarias-da-divina-revelacao-no-coracao-da-igreja/